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Copyright © 2003 Carlos de PaulaNão pode ser reproduzido sem a permissão do autor FORMULA
SUPER-VÊ: INÍCIO DE VERDADEIRO PROFISSIONALISMO NO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO Até
a ida de Emerson Fittipaldi
para a Europa, o automobilismo brasileiro poderia
ser categorizado, na melhor das hipóteses, de semi-profissional. Os campeonatos
eram confusos: calendários que não eram cumpridos, corridas canceladas ou
adicionadas de última hora, um sem número de categorias dentro de uma única
corrida. Era frequente ver, nas corridas brasileiras, uma grande mistura de
carros. Nos 500 km de Interlagos de 1965, por exemplo, correram GTs europeus,
GTs brasileiros, carros de turismo,
mecânica-continental, turismo de carretera
e F-3! Ou seja, monopostos grandes e pequenos com bipostos, carros de passeio, e
carros de 50 a 450 HP, verdadeira confusão.
A
reinauguração de Interlagos, com um padrão mais próximo de autódromo de
qualidade internacional, a realização de torneios internacionais e a disseminação
do patrocínio comercial, sem dúvida contribuiram para a evolução do
automobilismo nos anos 70. As fábricas, entretanto, ficavam às margens do
automobilismo. Apesar de algum apoio da Ford, a Fórmula-Ford realmente trilhou
seu caminho sem grande auxílio da fábrica. E foi assim que a VW, que começava
a expandir a sua linha de produtos, saindo do eixo Fusca/Kombi, decidiu investir
no automobilismo. A
categoria escolhida foi a Fórmula Super-Vê, que fazia sucesso na Europa e nos
Estados Unidos. Os carros usariam motores VW 1600, devendo ser fabricados no
Brasil. A decisão de lançar a categoria foi tomada em 1973, e o campeonato
deveria começar já em 1974. O
início de 1974 não foi bom para o automoblismo brasileiro. A crise do petróleo
afetou o país fortemente, e o automobilismo sofreu muito. Fora as corridas de
Campeonato Paulista de Divisão 1, 3 e 4, e algumas provas de longa
duração do campeonato brasileiro,
os outros campeonatos começaram quase no segundo semestre. A Super Vê, como
estreante, pelo menos tinha a desculpa da novidade. Eventualmente
o campeonato foi iniciado em
Goiânia, e apesar do pequeno número de carros,
prometeu muito. Alinharam carros Kaimann (fabricados sob licença da empresa
austríaca), Polar e o Newcar. O belo Polar,
com chassis monocoque, era
fabricado por Ricardo Achcar e Ronald Rossi, dois ex-pilotos com experiência
internacional. O feio Newcar era baseado num chassis de Bino Fórmula Ford,
fabricado por Newton Pereira. Entre os pilotos, nomes consagrados como Francisco
Lameirão, Ingo Hoffman,
Eduardo Celidônio, e um garoto novo de Brasília, com
o engraçado sobrenome Piket. Nos
primeiros dois anos, a maioria das corridas de Super-Vê tinha uma configuração
incomum no automobilismo brasileiro, usada algumas vezes na Formula
Vê. Corridas de três baterias, invés de duas
baterias frequentemente usadas em outras categorias. Ingo Hoffman ganhou a
primeira corrida, ganhando duas baterias, contra uma de Chico Lameirão. Na
segunda etapa, em Brasília, Lameirão virou a mesa, embora Ingo tivesse ganho
duas baterias e levado a pole, como na corrida anterior. Lameirão assumiu o
comando do campeonato. Na
terceira corrida, em Interlagos, já havia um número maior de carros, inclusive
marcas novas, Heve, do Rio de Janeiro, Manta, do Paraná e Mueller, do Rio
Grande do Sul. E foi um estreante
que ganhou a corrida na geral, Marcos
Troncon, que levou uma bateria, com Lameirão
chegando em segundo. No meio do campenato, que tinha seis etapas, Lameirão
liderava com 19 pontos. Mal sabia que os pontos marcados em Interlagos seriam os
últimos do ano. Ingo
Hoffman ganhou a corrida de Tarumã, aproximando-se de Lameirão, e Nelson Piket,
que demonstrava bastante velocidade desde o princípio da temporada, confirmou o
seu talento, ganhando em Cascavel.
Chiquinho Lameirão com o Polar da Motoradio em 1974 A
última corrida da temporada foi em Interlagos. A essa altura as corridas de
Super-Vê já estavam atraindo bom público, pois a VW gastou um bom dinheiro
promovendo a categoria nessa fase inicial. Os favoritos para ganhar o título
eram Lameirão, com 19 pontos, Ingo, com 18, e Piket com 16. O piloto com menos
condições de ganhar o título era Troncon, com 11 pontos. E foi justamente
Troncon que levou o caneco, ganhando a corrida, sem levar nenhuma bateria. Vitórias:
Troncon (2), Ingo (2), Lameirão (1) e Piket (1). Logo no primeiro ano, a Super
Vê ultrapassava a Fórmula Ford em interesse, estatura e até mesmo em número
de provas. O
campeonato de 1975 começou em Interlagos, com casa cheia. Nesse ano haveria um
campeonato paulista, além do Brasileiro, e Chico Lameirão demonstrou que não
queria perder dessa vez. Ingo Hoffman
tinha ido à Europa, para correr de F-3,
mas em compensação, José Pedro Chateaubriand voltou da Europa para correr de
Super Vê. Mais uma marca estreava: Avallone. E apesar de largar mal nas
baterias, com primeira curta, Lameirão ganhou a corrida. Na segunda etapa do
Paulista, Lameirão repetiu sua performance, dando a impressão de que bateria
seus concorrentes sem problema. Eventualmente,
estabeleceu-se um padrão. Nelson Piquet (já com o nome trocado), geralmente saía
liderando as corridas, com o Polar preparado por Giba. Acabava abandonando, e as
vitórias eram disputadas entre Lameirão, Alfredo Guaraná e Chateaubriand. Pela
primeira vez, transmitiram-se provas de um campeonato brasileiro de
automobilismo na TV, e as principais estrelas da categoria começavam a ganhar
certa popularidade, até então desconhecida dos pilotos locais. Os grids
ficavam cada vez maiores passando de trinta carros, e mais pilotos famosos
aderiam à categoria, como Teleco, Tite Catapani e
Norman Casari. Na última
etapa, em Interlagos, novamente Lameirão estava na frente da tabela, embora tivesse se
classificado mal nos treinos. Quarenta e um carros na pista. Mas com três
baterias para correr, Chiquinho ainda teria boas chances de bater seus
opositores. Acabou chegando em terceiro e ganhando o campeonato, mas
veterano Eduardo Celidônio acabou sendo o bicho papão do final do
campeonato. Vitórias: Lameirão (2), Celidônio (2), Guaraná (1),
Chateaubriand (1). 1976
começou bem, embora a notável ausência de carros Kaimann. A grande maioria
dos monopostos era Polar, e a categoria já não era mais chamada Super-vê:
agora era Fórmula VW 1600, e a Fórmula Vê, Fórmula VW 1300. Logo na primeira
etapa, Piquet mostrou que seria difícil batê-lo, e novos nomes despontavam,
inclusive Fernando Jorge, com um carro azul sem patrocinador. No final do ano,
Piquet havia ganho 6 das 10 corridas, e o resto foi dividido entre Guaraná,
Lameirão, Fernando Jorge e Troncon.
Chulam, Piquet e Guarana em 1976 Em
1977, a fase de ouro da Super-Vê já tinha passado. Não houve renovação de
carros, e os grids eram quase completamente formados de Polar. As estrelas dos
primeiros anos ou tinham ido correr no exterior, como foi o caso de Piquet, Ingo
e Fernando Jorge, ou estavam em declínio, como Lameirão, ou tinham se
aposentado, como Celidônio. Ainda assim restavam Guaraná, Chulam, Troncon e
Chateaubriand, que disputaram entre si o campeonato. Guaraná despontou como o
novo rei da Super-Vê, e de fato, foi o único a ser bi-campeão, ganhando os títulos
de 1977 e 1978. Os últimos anos da Super-Vê deram continuidade ao padrão iniciado em 1977.
A falta de estrelas foi agravada pela criação da
Stock-Cars, com forte promoção
da GM, que logo se tornou a categoria de elite do automobilismo brasileiro.
Houve falta de renovação dos monopostos, de forma que nos últimos dois anos
da categoria, algumas corridas chegaram a ter só 14 carros na largada – que
diferença dos grids de até 40 carros de 1975. Os novos pilotos de ponta, entre
eles Ronaldo Ely, Vital Machado, etc., não eram tão conhecidos como os pilotos
que fizeram da primeira fase da Super-Vê um sucesso de público. Maurício
Chulam ganhou o campeonato de 1979, com a carro da Equipe Brahma, aposentou-se,
e deixou o caminho aberto para Antonio Castro Prado ganhar o certame de 1980. A
VW retirou seu apoio, e o pouco que restou da agonizante F-Super Vê deu início
à Fórmula 2 Brasil.
Outra foto de Polar da Hollywood. Piloto Mauricio Chulam Neto
Apesar de vida relativamente curta, o legado da Fórmula
Super Vê foi importante. Pela primeira vez corridas locais foram transmitidas
na TV, um número grande de patrocinadores importantes passou a investir no
automobilismo, e o nível de profissionalismo das equipes aumentou bastante. OUTROS ARTIGOS DE AUTOMOBILISMO DE AUTORIA DE CARLOS DE PAULA AUTOMOBILISMO BRASILEIROSérie de artigos informativos AUTOMOBILISMO BRASILEIRO - ANTES DE 1970 GALERIA DE PILOTOS BRASILEIROS QUE CORRERAM NO EXTERIOR CAMPEÕES DO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO CURIOSIDADES DO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO BRASIL - COMEÇO DO CELEIRO DE PILOTOS - 1966-1971 RESULTADOS DO TORNEIO BRASILEIRO DE F-2, 1971 RESULTADOS DO TORNEIO BRASILEIRO DE F-2, 1972 1972 - CONSAGRAÇÃO DO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO VENCEDORES DE CORRIDAS NO BRASIL SCHUMACHER: É O MELHOR DA HISTÓRIA? EQUIPE HOLLYWOOD - COMEÇO DO PATROCÍNIO COMERCIAL CHEVROLET OPALA NAS COMPETIÇÕES BRASILEIRAS MECÂNICA CONTINENTAL - ONDE ELES ESTÃO? PIONEIRISMO DE EMERSON FITTIPALDI FUSCA NAS CORRIDAS BRASILEIRAS MARCOS DO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO 25 HORAS DE INTERLAGOS DE 1973
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