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SAUDADE

Por Carlos de Paula

 

Há diversas lendas urbanas culturais, e uma das que mais me irrita alega que a palavra saudade só existe no português. Não sei qual é a origem desta tenebrosa mentira, suponho que exista um desejo subjacente de sugerir que só os brilhantes lusófonos descobriram tal sentimento, a la Platão, e deram um nome a esta abstração... e todos os outros povos boiaram.

 

Se nós, faladores de português, fossemos os únicos a usar tal palavra no sentido nobre, até entenderia. Isso nos transformaria em seres superiores, capazes de captar uma emoção que nenhum outro povo conseguiu verbalizar, demonstrando assim um nível muito alto de evolução emocional.  Mas não aplicamos a palavra saudade só à dor da falta de entes queridos ou de um amor perdido nos recônditos do passado. Sentimos saudade dos drops Dulcora, do Mandiopã e dos lanches Mirabel, do ataque do Santos nos anos 60, dos festivais de música da Record, das vitórias do Ayrton Senna e alguns poucos dos governos militares da revolução. Tem gente com saudade até do Collor e do Maluf, pasmem! Saudade não se aplica só a questões do coração, mas também a matérias estomacais, cerebrais, renais e hepáticas. Y de otras cositas más. Ou seja, não aplicamos a sublime palavra com uma reverência superior: temos saudade de tudo e de todos, em qualquer circunstância, de forma indistinta.

 

Mas vamos ao verdadeiro xis da questão. Existe a palavra saudade no inglês, por exemplo? À primeira vista, a grande deficiência seria a falta de um substantivo, pois o verbo “miss” é perfeito para identificar o ato de sentir saudades de alguém. Quando você diz “I miss you”, está dizendo “sinto saudades de você”. Os mais afoitos poderiam argumentar que só no português teríamos o substantivo. Ledo engano. Pois este existe também no inglês, “longing”, por exemplo em “I feel longing for you”. Esse tipo de construção é um pouco raro no inglês, onde sentimentos são normalmente expressados por verbos, portanto a palavra é pouco usada, pelo menos em comparação à nossa ubíqua “saudade”.

 

Curiosamente, o verbo “miss” é mui raramente usado em questões digestivas, por exemplo em relação a defuntas marcas de batatinha frita, ou a outros sentimentos saudosos menos nobres e mais frívolos, como saudade da época das máquinas de escrever. Poucos diriam “I miss typewriters”, por exemplo. Portanto, a tese de nobreza no uso da palavra no idioma de Camões e Machado, Lula e Adonyram  cai por terra: no idioma inglês certamente há mais reverência pelo termo.      

 

Não precisamos ir muito além dos nossos vizinhos iberos, e constatar que o substantivo “saudad” também existe no idioma de Cervantes, embora seja usado raramente. Só que o verbo “extrañar”, que por sinal, não significa estranhar, é uma perfeita tradução para “sentir saudades” e é usado com freqüência nas Américas. E aí por diante.

 

Vou parar por aqui, senão vira covardia. Com dois idiomas já ficou provada a minha humilde tese de que a saudade não é privativa do nosso idioma, o que não faz dele menos bonito, interessante ou rico. Espero que não fique com saudade da época em que achava que saudade só existia no português! 

 

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Last modified: October 15, 2007