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Ana Cintra Por
Carlos de Paula O 450°
aniversário da cidade de São Paulo ocasionou o lançamento de inúmeros livros
históricos sobre a cidade, com belas e raríssimas
fotos. Em muitos desses, descobrimos que um dos bairros mais “nobres”
de São Paulo no começo do século passado era o bairro de Campos Elíseos,
homenagem a seu homônimo parisiense, criado pelo suíço Glete. Entre outras
coisas, o bairro abrigou o Palácio do Governo Estadual até a década de 60,
quando os ventos demográficos levaram o palácio, e o seu prestígio, para o
sulino Morumbi. Há
quem diga que a Rua Ana Cintra se situa no outrora chique Campos Elíseos,
outros, em Santa Cecília. Seja qual for o caso, a Rua Ana Cintra deve ser uma
das mais curtas em São Paulo. Inicia-se na Alameda Barão de Campinas, cruza a
Avenida São João, e termina no Largo de Santa Cecília. Dois quarteirões.
Hoje tem a honra de abrigar uma estação de Metrô (na realidade, fica no largo
de Santa Cecília, mas vamos fingir que é da Ana Cintra), e também uma saída
do Minhocão. Terror dos taxistas, que sempre insistiam em nos levar para a Bela
Cintra. A rua
nunca foi grande coisa em termos de opulência, mas, teve a dúbia distinção
de abrigar uma garçonière do libidinoso Assis Chateaubriand, segundo a
sua biografia escrita por Fernando Morais. Dizia-se que por ali vivia um
Chateaubriand, supostamente um dos seus filhos, que certa feita jogou inúmeras
cartas bem pessoais pela janela. Num prédio próximo do Largo de Santa Cecília,
ensaiava o grupo os Incríveis, no auge da fama. Havia
um casarão na esquina com a Barão de Campinas, no qual residia o Sr. Castro.
Dono de um bem cuidado Volvo verde escuro, com o qual insistia em trafegar em
contra-mão, seu Castro aparentemente vendia
adubos, pois vivia recebendo caminhões com sacos contendo alguma coisa
graúda. Morou lá até o início da década de 70, quando o casarão foi tomado
por cupins. Ainda bem que levou sua empregada, uma chata ranzinza que vivia
ralhando com as nossas peladas e não devolvia as bolas que caíam no quintal. Outro
inquilino ilustre foi a Jolly, revendedora/representante autorizada da
Alfa-Romeo no Brasil. Também tinha uma equipe de competições que papava tudo
nos anos 60/70, e por serem carros caros, frequentemente causavam a visita de
celebridades fashion na humilde rua. Certa feita, lá esteve Jô Soares,
todo contente com a sua Spyder, na época em que não se levava tanto a sério,
e felizmente sem seu trompete ou bongôs! Certamente, diversas outras
celebridades lá vieram trazer suas Alfas, para ser tratadas pelo esmerado
Giuseppe Perego. A Jolly tirava um pouco o sossego da rua, pois lembro-me que as
Alfas GTA 25, 23 e 27 de vez em quando visitavam a loja da Ana Cintra, em marcha
lenta, com seus escapamentos abertos e a caminho de Interlagos. Para mim, eram música. Lembro-me
que lá residia um ilustre professor de música, cujo nome nunca soube. Fomos no
seu estúdio uma vez, assuntar sobre aulas. Na esquina com a São João, ficava
um elegante e grande prédio chamado Racy, que entre outras coisas, tinha uma
garagem subterrânea, algo muito diferente para a época naqueles lados da
cidade. Havia rumores de que Agnaldo Rayol, coqueluche dos anos 60, teria um
apartamento no prédio. O Racy fora construído em cima de um lençol d’água,
ou coisa do tipo, de forma que o cinema que abrigava na esquina com a Helvetia,
o Cine Eden, teve de ser interditado por ficar inundado frequentemente. Imaginem,
um Eden alagado. E o mesmo acontecia com a inovadora garagem subterrânea.
Imagino que o Racy não fosse tão chique assim, exceto que lá morava uma
menina que frequentava a minha escola, um ano na frente, cujo nome era Vania,
Vanda, ou algo assim, que para mim parecia um anjo ou princesa. Portanto, na
minha lógica pueril devia ser um palácio, e foi essa imagem que ficou fixada
na minha mente. Na direção da Duque de Caxias, na São João, ficava o Cine
Comodoro, também conhecido como Cinerama, que sacudiu o prédio onde se situava
quando lá passou o filme “Terremoto”, e durante uns tempos, o esquisito
CineEspacial, que tinha três telas numa única sala!!! Além de um tobogã, que
nunca tive coragem de enfrentar.
Resquício de uma época mais campoeliseanesca, uma pequena loja da
Kopenhagen. Meus
pais não se mudaram para a Ana Cintra por se deleitarem com o local, certamente.
Como meu pai trabalhava na Folha de São Paulo, só tinha que andar dois minutos
para chegar ao trabalho. E acabamos ficando, embora tenha eventualmente saído
da Folha. Nos
anos 60 e 70 a Ana Cintra era uma rua pacata, apesar de estar no centro da
cidade. Dava até para jogar bola no meio da rua. Presenciei diversas das suas
metamorfoses; o asfalto cobrindo os paralelepípedos, a chegada das lâmpadas de
mercúrio, e o fim dos bondes que passavam pela Avenida São João. Duas vezes
por dia, ao meio-dia e às seis horas, soava em altos brados a sereia da Folha
de São Paulo, de forma que era possível saber a hora certa em duas ocasiões.
E descobri, mais tarde e já adulto, que quase explodem a Folha num atentado
terrorista em 1971. Quase fomos todos, eu, a Folha e a Ana Cintra, para os ares.
Havia
os personagens da rua, as figurinhas carimbadas. A portuguesa, dona de uma pensão
para rapazes, que expulsava os mal pagadores a vassouradas, enquanto seu
bigodudo marido e filho só olhavam espantados. Dois sujeitos, o Maravilha e o
Pernambuco, que faziam biscates aqui e ali, de residência e nomes ignorados e
que viviam de fogo – e uma vez brigaram feio. E o Seu João, o Bill Gates da
rua. Havia três mercadinhos na Ana Cintra. Seu João começou no menorzinho, a
proverbial portinha, em sociedade com o Sr. Albino. Progrediu um pouco, e
comprou o mercado médio, já sem o conterrâneo a tiracolo. Mais alguns anos,
comprou o maior, usando o médio de depósito e virando o rei monopolista do
varejo na rua, ocupando a maior loja do número 123. Um pouco irritadiço,
sempre brigando com as crianças, nunca sorridente, aparentemente o maior prazer
do Sr. João era mascar pedacinhos de bacalhau crú, expostos à profusão na
frente da loja. Às vezes nos dava balas, sempre as Paulistinhas.
Concedia crédito liberalmente, usando uma caixa cheia de papeizinhos rabiscados,
que só ele entendia, e no fim do ano dava uma garrafa de birita para os
melhores clientes. Não sei se as dava para os pinguços Maravilha e Pernambuco.
Tampouco sei como operou o seu fiado durante os anos de estagflação, pois a
essa altura há muito não visitava a rua. Fui-me
nos anos 70, e fiquei sabendo que a rua já não era mais a mesma. Diziam que
por ali abriram-se muitas bocas de fumo e de crack, e que o meretrício se
espalhara por Santa Cecília/Campos Elíseos. Que era o local predileto de residência
de garotas de programa. Etc., etc. Nada de bom. Não que ali fosse a Vieira
Souto. Mas era uma rua pacata, família, e salvo por um homicídio na Barão de
Campinas, quando um rapaz foi baleado numa tarde de domingo, e um suspeito suicídio
de uma policial feminina que morava no nosso prédio, a rua não era conhecida
por atividades criminais. Mas aparentemente, a decadência da pequenina rua foi
vertiginosa. Embora
visitasse frequentemente São Paulo, preferia o conforto e a irrealidade
relativa dos Jardins, a visitar a rua da infância. Curiosidade não faltava, e
sim intrepidez. Finalmente, não tive desculpas. Numa das minhas visitas, tive
que pegar um documento na Justiça Eleitoral, que ficava na Duque de Caxias, ou
seja, a uns dois quarteirões da velha rua. Enchi o peito de ar, e lá me fui em
busca das raízes infantis. Confesso
que fiquei triste. Já na Duque de Caxias, notei que alguns prédios haviam sido
abandonados, e invadidos. O comércio da área limitado a alguns botecos de
qualidade questionável. Nada de Cinerama. E qual foi minha surpresa quando
notei que o 123, o prédio da esquina com a São João, outrora sede do império
varejista do Sr. João, e no lado oposto do Racy da angelical Vanda/Vania, era
agora também um prédio com lojas desocupadas, e aparentemente, abandonado.
Tive amiguinhos naquele prédio. A Patrícia, que estudou conosco. O Maurício,
metido que nem ele só, que quebrou o braço num caminhão. Era um bom prédio
de classe média, com elevador e tudo. A Ana Cintra estava inserida na triste
realidade do centro da cidade. Mais
triste fiquei quando constatei, recentemente, que os 70 apartamentos do 123
acabaram invadidos, e eventualmente, mais triste ainda, que os invasores
acabaram expulsos de lá em janeiro de 2004, com ação policial e tudo. Há estórias
a ser contadas. O que levou o proprietário de um edifício razoavelmente grande,
de classe média, a abrir mão do mesmo? Deixou de pagar seus impostos e o
governo o tomou? Por que? Briga de herdeiros? Por que uma área vai decaindo de
tal forma, e outras, enobrecem, como as outrora cafonas Vila Madalena e Tatuapé?
O que leva os moradores e proprietários a chutar o pau da barraca? Imagino que
sejam assuntos que interessam os urbanistas, antropólogos, arquitetos e sociólogos,
que obviamente os analisam sob uma ótica asséptica, sem envolvimento emocional
e de uma forma generalizada. Mas as estórias da Ana Cintra são, afinal, estórias
da Ana Cintra.
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