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PRECONCEITO LINGÜÍSTICO

Por Carlos de Paula

 

Recentemente tive o prazer de terminar de ler o livro “Preconceito Lingüístico”, do lingüista Marcos Bagno, o qual recomendo.  O preconceito social no Brasil é um assunto que me fascina bastante, e já falei sobre o tópico no meu texto sobre Diogo Mainardi, o porta-voz do preconceito social do Brasil, e sobre elitismo e alcoolismo. Bagno discute algumas questões interessantes sobre o nosso idioma, inclusive a freqüente alegação de que se fala mal o português no Brasil. Num extremo estariam os gramáticos, ferrenhos defensores de um idioma que julgam ser um complexo e rigoroso, porém morto, código de leis, e no outro, lingüistas com uma visão mais abrangente e fluida, porém viva, do que vem a ser a língua. Entre outras coisas, o autor aborda o uso da chamada norma culta como elemento de exclusão social, ou seja, de verdadeiro preconceito social.

 

Não sou dado a posições extremas em muitos assuntos, e nesse caso, embora tenha gostado muito do livro, acho que não devemos ir nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Concordo com o autor que o mero conhecimento de gramática não qualifica uma pessoa como bom escritor. Conheço pessoas que conhecem muito bem gramática, mas têm grande dificuldade para compor textos. Parece até que a gramática, em alguns casos, constitui verdadeiro empecilho à arte de redigir. Também concordo que essa excessiva gramaticalização da língua pode ser, e de fato, é, um elemento de preconceito social.

 

Por outro lado, a noção de que qualquer “falante” do idioma é um conhecedor qualificado da nossa gramática, embora não saiba dar nome aos bois, me parece um pouco extrema. Basta observar a intensa dificuldade que uma grande parcela da população tem para se comunicar, seja verbalmente ou por escrito. Não estou falando só de analfabetos...Uma boa base gramatical pode expandir os horizontes de uma pessoa, ensinando-a a encarar o idioma como uma ferramenta, e saber usa-la. O vulgo conhecimento intuitivo leva muitos a usar martelos como se fossem chaves de fenda, serrotes como alicates!

 

Em última análise, ler muito, com variedade, é o que leva uma pessoa a escrever bem, e nisso concordo com o autor. Não digo escrever com erudição, como alguns gostam de definir escrever bem. Qualquer pessoa que já teve contato com atrozes acórdãos do STF, petições jurídicas e sentenças, sabe do que estou falando. O uso de empombada linguagem como arma de exclusão faz dela um instrumento de anti-comunicação. A farta utilização de vocábulos raros, há muito em desuso até mesmo nos meios literário e acadêmico, e de construções complexas que tornam textos entediantes, só prova que o autor na realidade não deseja ser entendido. Freqüentemente os produtores dessas monstruosidades se perdem no seu intento de “mostrar serviço”, provando que, de fato, são maus escritores. Fazem a mesma coisa que não tomar banho e se encher de perfume. O problema vai muito além da questão jurídica: entender os aspectos legais é, freqüentemente, muito mais fácil do que entender a enfadonha “encheção de lingüiça” que permeia tais textos.

 

Voltemos ao “x” da questão. É possível para uma pessoa escrever bem, com uma base gramatical fraca ou meramente analógica? Vou dar um exemplo, que muitos podem pensar espúrio, por ser musical. Paul McCartney é um dos músicos mais conhecidos e influentes do século XX . Excelente compositor e instrumentista, o autor de “Yesterday” achou-se capaz de compor uma sinfonia clássica.  Segundo muitos connaisseurs a opus McCartneyana é uma patente imitação, que viola fundamentos básicos da estrutura de composição clássica, com óbvio desconhecimento de recursos melódicos, harmônicos e rítmicos amplamente usados por compositores desta variedade musical. Não faltaram a Paul  imaginação, criatividade ou musicalidade, mas sim, técnica. Ou seja, a sinfonia se assemelha aos Rolex que se compram nas ruas de Nova York, à primeira vista verdadeiros.

 

Paul procurou compor por analogia, por “escutologia”, e julgo que mesmo pessoas bem lidas, mas com fraca base gramatical, acabam fazendo a mesma coisa quando redigem. Tentam imitar os grandes escritores e redatores, como Paul certamente tentou copiar Beethoven e Bach, mas o resultado final freqüentemente é uma imitação barata, dispensável e, às vezes, ininteligível.

 

Entendo que o autor não está sugerindo que seja excluído o ensino de gramática nas escolas, mas infelizmente alguns mais afoitos podem pensar que esta é exatamante a mensagem do livro, principalmente pela defesa da tese de que na realidade não há português errado, e sim uma língua viva procurando um caminho. A interpretação de vale tudo pode ter conseqüências caóticas.  Como tradutor, me deparo diariamente com a realidade de que a linguagem é um ser mutante, pois desde que comecei a trabalhar na área até hoje, já é possível detectar muitas mudanças, até mesmo na norma culta, tanto no inglês como no português. Não precisa ir muito longe: leia uma revista dos anos 60, e outra atual, e as mudanças são notáveis. No nosso idioma, estas não são causadas só por neologismos, freqüentemente assimilados do inglês, mas também inteiras construções adotadas pelo português, quiçás por serem tão freqüentemente divulgadas em fracas e apressadas traduções de livros e filmes que acabam virando uma nova norma.

 

Por outro lado, existe o papel social da gramática, quase universalmente a primeira tentativa de ensinar às crianças um conjunto de regras rigorosas a ser seguido, que não foi considerado no livro. Se o Brasil, como sociedade, já tem um endêmico e aparente problema com regras (não somente o excesso destas, mas também o fato de que burlar normas é um esporte nacional entre pessoas de todas as classes), a diluição do estudo gramatical pode ampliar ainda mais a crise. Vivemos, afinal, em um país no qual a situação atual do BBB ou a identidade da nova perua a posar nua na Playboy ou na Sexy são manchetes de primeira página dos sites dos jornais supostamente sérios!!! Será que podemos prescindir disso? Alguns podem sugerir que se o País tivesse menos regras, o povo as seguiria. Considero isso um argumento circular, equivalente a dizer que o problema das drogas existe por que elas são proibidas, e quando forem liberadas o uso vai diminuir e o problema, acabar!

 

Voltando à consideração de que a norma culta é uma forma de exclusão social, há de se convir que todos os grupos sociais criam seus próprios subgrupos lingüísticos, como uma forma de exclusão. Para os traficantes, farinha e brilho são cocaína, para os jovens, ficar e sinistro têm significados próprios. Para alguns evangélicos, manto e amarrar  exprimem idéias de difícil compreensão aos não convertidos, não documentadas no Aurélio. A própria Internet gerou uma linguagem nova, entre os freqüentadores de chats, onde bjus, fds e kkkkk (ou rsrsrs) têm seus próprios significados. O intuito da gíria, querendo ou não, é sempre o mesmo: exclusão daqueles que não fazem parte do grupo. Portanto, de certa forma, quando os Ministros do STF ou os Napoleões Mendes de Almeida de plantão fazem uso de vocábulos usados por Pero Vaz de Caminha, e esdrúxulas construções, estão fazendo a mesma coisa que os traficantes, jovens, evangélicos e interneteiros, quando usam farinha, sinistro, manto e bjus. Ou seja, a exclusão lingüística, infelizmente, faz parte da natureza humana. 

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Last modified: October 15, 2007