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PERUÍCE NO PARAÍSO DOS
SEQÜESTROS Por Carlos de Paula Atualmente, viver nos
grandes centros brasileiros pode ser considerada uma ocupação de alta
periculosidade, pelo menos por parte das chamadas elites. Seqüestros relâmpagos
e tradicionais assolam a Bélgica brasileira, criando verdadeiro conflito
de classes que nem Karl Marx vislumbraria possível. Ser bem sucedido e
competente não deveria ser crime em nenhum lugar do mundo, mas aparentemente é
no Brasil. Entretanto, quem condena os endinheirados não é o judiciário,
conhecido por exculpar criminosos de colarinho branco, mas os executores das
leis da Índia brasileira, em sentenças com trânsito em julgado sem
direito a recurso: os seqüestradores e seus seqüestros. Quando a onda mais
recente de seqüestros se iniciou, no final dos anos 80, logo se distinguiu da
modalidade praticada nos anos 60, ações baseadas em viés ideológico, e, diga-se
de passagem, tão erradas e criminosas quanto as atuais. Quiçás em alguns anos,
ex-seqüestradores relâmpago grisalhos também ocuparão cargos de deputado
federal ou mesmo no Poder Executivo, justificando suas ações passadas com miríades
de teorias sociais. Mas isso é assunto para outro texto. Na nova onda de seqüestros
os passaram a ser empresários super bem sucedidos, como Abílio Diniz, e não
embaixadores. Mas no momento atual parece que até donos de padaria são alvos,
ou seja, o mercado se segmentou. Há seqüestros classe A, B, C etc...Democratizaram
o seqüestro! Pessoas como Abílio
Diniz não têm como evitar a mídia. Quando o faturamento da sua empresa excede,
e muito, 1 bilhão de dólares, é um pouco difícil esquivar-se dos holofotes!
E assim ocorre com alguns outros poucos milhares de sortudos ou azarados indivíduos
no Brasil. Aqui o qualificativo depende da circunstância: sortudo sob os
holofotes, azarado em cativeiro. Em tal ambiente de
insegurança latente não dá para entender quando pessoas, sem qualquer
necessidade, se colocam na mira da mídia, voluntariamente. Nunca entendi metade
dos losers que aparecem na revista Caras. Que as candidatas a top model e
as starlets globais da vida desfilem às pencas nas páginas deste almanaque da
frivolidade, dá para entender. Precisam da exposição na mídia para avançar
nas respectivas carreiras, mesmo por que as únicas coisas que têm para mostrar
são sua beleza e dotes glúteos. Agora, quando clientes de private banking, com
estufadas contas em Cayman, e que estão muito bem escondidinhos dos olhos do público
voluntariamente ostentam seus tapetes persas de US$100,000, Maseratis de
$300,000 (às vezes até as placas), palacetes e jóias de dar inveja ao Rei
Salomão - aí não entendo. É muita vontade de aparecer mesmo, que se dane a
segurança! Outro dia recebi um
artigo publicado no Estado de São Paulo que me fez arrepiar mais do que
qualquer fascículo de Caras. Sem entrar em muitos detalhes, o assunto do artigo
era um dos principais shopping centers de São Paulo. Como ilustração, uma
foto razoavelmente grande de uma mulher cheia de pacotes. Na legenda,
identificava-se o nome completo da dita cuja, com todos os “is”. O corpo do artigo
mencionava também a nobre profissão da notável, embora uma busca adicional na
Internet indicasse que não pratica a profissão por que “não precisa”!!!!
Além disso informava, de forma enfática, que a nossa heroína freqüenta o tal
shopping center pelo menos duas vezes ao dia, especificando o tipo de
estabelecimento (farmácia, cabeleireiro) prestigiado com sua régia freguesia.
Só faltavam os horários, nome das lojas e número de CPF e senha de cartão da
gastona. Como golpe final, desvenda-se a hiperdimensionada capacidade financeira
da nossa rainha do consumo: descobre-se no artigo que tem mais de 200 sapatos
italianos no seu closet: más o menos U$50,000 só em sapatos! Ou seja, nossa querida
diva do shopping deu sua ficha completa para possíveis seqüestradores: nome
completo, aparência física, onde e quantas vezes freqüenta um determinado
local e até mesmo uma indicação do seu poder de fogo pecuniário! Fiquei
surpreso por não sugerir o valor do resgate! Será que eu estou louco,
ou esta pessoa está brincando com fogo? Se fosse um caso isolado,
compreenderia com reservas. Entretanto, as páginas da mídia impressa
brasileira estão repletas deste tipo de narcisismo e complexo de superioridade,
herança das colunas sociais. Fica fácil entender que as fontes de informações
dos seqüestradores são múltiplas, e freqüentemente, dadas de lambuja pelos
futuros seqüestrados e de forma completamente desnecessária.
Published by De Paula Publishing, Miami Beach, FL |
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