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O FALSO-CALMO  

Por Carlos de Paula

 

O atual prefeito de Nova York,  Michael Bloomberg, escreveu no seu livro que um dia estava ponderando qual seria o texto do seu obituário no New York Times. Achei a idéia um terrível exercício de futilidade e mal gosto, sem contar que indica um ego completamente fora de controle. Infelizmente,  agora que se tornou prefeito, é quase impossível não sair um obituário do rei das telinhas pretas no NYT, a não ser que o jornal feche antes da morte do Mikey. Convenhamos, a falência desse jornal é quase uma impossibilidade enquanto o mundo existir. Por outro lado, visto que até o Carlos Cachaça mereceu um obituário no mais famoso jornal do mundo, já não vejo grande vantagem em ter a morte divulgada no respeitável periódico. Como não nutro esperanças de ter meu óbito noticiado na grande imprensa mundial, o assunto não me empolga muito.

 

Suspeito, entretanto, que haja uma pequena possibilidade de o meu pesaroso falecimento ser anunciado não só no NYT como nos principais jornais do mundo, quiçás até nas Notícias Populares e National Enquirer. Sim, senhoras e senhores, pois acabo de identificar, após anos de pesquisas e observações, uma sub-espécie humana.

 

No início achava que era um mero traço de personalidade ou caráter. Depois notei a preponderância do fenômeno, as nuances taxonômicas, e a perniciosidade das características do tipo, e comecei a pensar que se tratava de uma sub-espécie. O FALSO-CALMO.

 

Sem dúvida o leitor conhece diversos falsos-calmos, e há grande possibilidade de que seja um. Em suma, o falso-calmo é aquele sujeito que tem toda aparência de calmo, mas por dentro é uma verdadeira bomba pronta para explodir. O falso-calmo se manifesta em diversas formas. Na maneira como fala, escreve, anda, até na forma como dirige. O falso-calmo na direção é um perigo. É aquele sujeito que posiciona o carro bem no meio da rua, de forma a não permitir que ninguém o passe à esquerda ou à direita, e anda a 10 km por hora, assobiando uma valsa maviosa. Pode buzinar que ele não muda sua velocidade ou posição. Até nas pistas de F-1 existem os falsos-calmos. São aqueles pilotos que fingem que os seus carros não são equipados com retrovisores e fazem cara de vítimas quando são interpelados por repórteres ou concorrentes.

 

Geralmente o falso-calmo fala pausadamente, tem movimentos curtinhos, milimetricamente medidos e precisos, mas tudo na sua atitude exige rapidez irrazoável dos seus interlocutores. O falso-calmo é exigente por essência e consegue deixar outros seres humanos doidos. O falso-calmo, como chefe, manda muita gente para o hospício, cadeia ou cemitério. Como cônjuge, é receita certa para o divórcio.

 

IMPORTANTE: Não confunda o falso-calmo com o passivo-agressivo. O último é extremamente fácil de identificar, ao passo que a identificação do falso-calmo requer um amplo conhecimento da sub-espécie. Mais cedo, mais tarde é fácil identificar a agressividade do passivo-agressivo. Tudo no falso-calmo é zen!

 

A façanha mais incrível do falso-calmo é nunca perder as estribeiras (nas aparências, lógico, por dentro ferve). O verdadeiro calmo tem sempre algo que o tira do sério, pode ser a coisa mais banal, mas tem algo. O falso-calmo, não. Mantém aquela aparência de estar em controle de qualquer situação, embora sua gestão invariavelmente resulte em caos. O falso-calmo tem resposta para tudo, para todos, em qualquer momento. Consegue, apesar da sua tendência ao caos gerencial, galgar altos postos na administração pública, privada e nos meios acadêmicos. Haveria uma sociedade secreta de falsos-calmos, dominando o mundo como a maçonaria do passado? Caso a pensar. ..

 

Como lidar com o falso-calmo?  É possível eliminar a sub-espécie geneticamente? Até que ponto o chato de galocha, o viscoso-manso e o falso-calmo são a mesma sub-espécie? Essa será a próxima fase da minha fascinante pesquisa. Se os falsos-calmos deixarem, óbvio. Minha vida corre perigo. Fiquem ligados. Se o site sair fora do ar, deixem o país...

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Last modified: October 15, 2007