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NÓS TEMOS PIERCING, PIERCING, PIERCING Por Carlos de Paula Quer
queira, quer não, já não sou jovem. Também não sou velho. Estou naquela
idade em que não sou nem uma coisa, nem outra. Às vezes me sinto um frango, às
vezes uma galinha velha daquelas que não servem nem para fazer canja. Considerações
galináceas à parte, tenho ciência de que já estou meio passadito para certos
tipos de atividades e comportamentos, mas por outro lado, ainda não estou
pronto para ficar jogando dominó e escarafunchando os obituários o dia inteiro.
Pelo menos ainda não cheguei naquela fase preocupante de achar que tenho que
escrever meu livro de memórias. Acho que não aguentaria de sono. Meu livro de
memórias precisaria de muito exagero literário para ficar interessante. Mas
confesso que a memória já me trai. Não sou nem isso, nem aquilo.
Parafraseando Cecília Meirelles. Ou é Raquel de Queiroz? De novo a memória... Outro
dia estava assistindo uma fita com um documentário sobre a jovem guarda. Sou
antigo o suficiente para ter assistido o programa Jovem Guarda ao vivo (mas era
bem pequeno!). Confesso que gostei de ver o documentário. Engraçado foi ver
uma cantora cinquentona, ou sessentona, que não vou dizer que era a Wanderléia
para não envergonha-la, cantando em altos brados “Nós somos jovens, jovens,
jovens...”! Difícil de enganar. Daí
lembrei de outra música, do Belchior, intitulada “Como Nossos Pais”. Aí o
caldo engrossou. Enquadro-me mais no caso do Belchior do que no da Wanderleia. E
vejo que os jovens de hoje serão os maduros de amanhã, e sempre verão a
juventude atual com um certa mistura de admiração e desdém, justificando a
rebeldia da sua geração, mas não da presente. Não
me enamoro muito de certas coisas da juventude atual. Não entendo o padrão de
enfeiamento nas roupas, por exemplo, o uso de sacos de cebola na cabeça – FEBEM
Fashion. Calças caindo. Maquiagens defuntórias. Não entendo como pessoas
nada agressivas consigam engolir as letras atrozes dos E-minem e Snoopy Dog da
vida, copiadas pelos funkeiros da perifa. Não entendo por que jovens tão
talentosas como Cristina Aguillera, tenham necessidade de se vestir como
rameiras de rua. E o pior de tudo é o piercing!!! Isso não engulo mesmo.
Normalmente, a vaidade se relaciona a traços individuais como beleza, inteligência, elegância, e coisas do tipo. Geralmente não a associamos ao inevitável coletivo, como idade. Só que o saco de cebola, E-minem, quenguice da Aguillera e o piercing são pura vaidade de ser jovem. Existe essa vaidade da juventude, que a pessoa carrega até o fim da vida, até ficar velho. De vez em quando aflora, e a pessoa cai no ridículo, como a Wandeca. O grito de guerra “nós somos jovens”, tão fora de lugar na boca de uma avó, se transformará no “nós temos piercing” de amanhã. Nós temos piercing, piercing, piercing... OUTRAS CRÔNICAS DE CARLOS DE PAULA FOCO POP: ENTREVISTA COM REGININHA PIMBÓ |
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