Copyright © 2003 Carlos de Paula
Não pode ser reproduzido sem a permissão do autor
MECÂNICA
CONTINENTAL: A ERA DOS HÍBRIDOS
A
categoria Mecânica Continental foi uma forma de manter carros de corrida
andando no Brasil. Segundo dissemos antes, foram realizadas diversas corridas
internacionais no Brasil, de meados da década de 30 até meados da década de
50. Como a viagem para a América do Sul era longa, e de navio, frequentemente
os participantes estrangeiros dessas corridas traziam os carros com a intenção
de vendê-los no Brasil. Além disso, as corridas internacionais continuaram na
Argentina até 1960, e havia uma relativa abundância de carros de corrida
naquele país, principalmente Maseratis e Ferraris. Alguns dos bólidos
terminavam no Brasil.

Camilo Cristofaro e Sua Maserati-Corvette
Entretanto,
uma coisa é comprar um chassis e mantê-lo em condições de uso, e outra coisa,
manter motores de fórmula-1 em condições de funcionamento. Já naquela época
os motores dos carros de F-1 eram frágeis e caros, e era muito difícil trazer
os componentes para o Brasil. Assim, que optou-se pela criação de uma
categoria, a mecânica continental, carinhosamente chamados “charutinhos”,
cujos carros seriam chassis de carros de competição europeus, acoplados com
motores V8 americanos. Estes eram potentes, mais abundantes, baratos e também
mais duráveis. Em grande parte, usava-se o motor do Chevrolet Corvette, mas o
Ford e Studebaker também foram usados. No fim das contas, uma Maserati com
motor Corvette era muito mais potente do que a original equipada com motor 2,5
litros (em mais de 100 HP!!!).
As
corridas de Mecânica Continental eram curtas (ou seja, não eram as corridas de
longa duração, dominadas pelas carreteiras, ou Mecânica Nacional), com excessão
dos 500 km de Interlagos, a prova de maior prestígio da categoria, criada em
1957.

Diversos
Mecanica Continental nos 500 KM de Interlagos de 1963. Na frente, o Landi-FNM de
Celso Lara Barberis, que faleceu nessa corrida
Tentar
achar o pedigré desses bólidos é, obviamente, difícil. Não
supreendentemente, é mais fácil obter informações na Europa do que no próprio
Brasil. E é quase certo também, que muitos os ex-Mecânica Continental já
foram descobertos por espertos colecionadores internacionais (por exemplo, Colin
Crabbe) e já não estão mais no Brasil há muito tempo.
A
identificação dos carros por fotos (raríssimas) é frequentemente difícil,
pois os carros acabavam sendo modificados. Os próprios chassis eram modificados, e incorporados em outros protótipos, como um chassis de Maserati,
supostamente de F-1 (ver adiante) e alguns dizem de carro esporte, que ganhou vida nova no protótipo Tempestade
da Equipe Simca (equipado com motor Chambord).

500 km Interlagos - 1962
A grande
maioria dos pilotos ativos naquela época já faleceu, de forma que isso
dificulta ainda mais a identificação desses bólidos.
É fácil
identificar, entretanto, que Camilo Cristófaro pôs as suas mãos em um
Maserati 250F, um dos carros de GP mais famosos e bem sucedidos. Usou este carro
até 1965, com motor Corvette, e ganhou muitas corridas. Qual era o chassis
usado pelo Camilo não sei, só que descobri que pelo menos três 250F correram
no Brasil, dois dos quais já foram tirados do país por colecionadores
internacionais.
Maserati Mecanica Continental de Nelson Marcilio - bem modificada
não é possivel distinguir o modelo
O
chassis 2507/1 (número mudado para 2523/2522), que já havia sido usado por
brasileiros na Europa (Da Silva Ramos, em três corridas na Inglaterra, e Fritz
D’Orey, no GP da França), acabou nas mãos de Luis Margarido, e equipado com
um motor Corvette. Voltou para a Europa, comprado por Colin Crabbe. Este carro
correu com muita gente boa, inclusive Roy Salvadori, Harry Schell, Masten
Gregory, Jo Bonnier, mas não teve muita sorte nas provas oficiais do campeonato
de F-1. Obteve uma vitória na Europa, no Curtis Trophy de 1954, em Snetterton,
Inglaterra, com Roy Salvadori, fazendo também a volta mais rápida.
O
chassis 2507/2 também começou sua vida pilotado por Roy Salvadori, e também
ganhou uma edição do Curtis Trophy, em 1955, além do Glover Trophy, em
Goodwood, o Daily Telegraph Trophy, todos em 1955, e o Vanwal Trophy, em 1956.
Acabou comprado por João Lacerda, em 1957, eventualmente voltando à Europa,
adquirido por Amschel Rothschild.
O
chassis 2502, que foi renumerado 2511, teve uma longa vida, e também correu com
muita gente boa: Villoresi, Ascari, De Graffenried, Gregory, Schell. Pilotado
por Harry Schell ganhou o GP de Caen, em 1956. Terminou nas mãos de Ciro Cayres/Nicola
Papaleo, depois de 1958. O seu paradeiro final é desconhecido (seria o Simca
Tempestade? Provavelmente, visto que o seu dono era o Ciro Cayres ).
O
Maserati A6 GCM, chassis 2033 51 foi o carro usado pela Escuderia Bandeirantes,
do uruguaio Heitel Cantoni. Correu na Europa, em 1952/3, e eventualmente
terminou no Brasil. Voltou à Europa, foi restaurado, e sobrevive.
O
chassis 2032 51 (A6 GCM) também foi usado pela Escuderia Bandeirantes, na sua
“bandeira européia”, e terminou com o Chico Landi. Nada se sabe do seu
paradeiro.
Uma série
de outros Maserati dos anos 50, em grande parte modelos Sport, passaram um tempo
no Brasil, e pelo menos um correu até a década de 70 (um velhusco Maserati
usado por Salvatore Cianciaruso até 1971).
F-Landi-Bianco
DKW 1.0 litro contra Mecanica Continental V8. Interlagos, 1963. Anisio Campos no
DKW
O
chassis 3062 do Maserati 300 S Spyder nem chegou a correr na Europa. Stirling
Moss o usou em duas corridas em Cuba, e na Venezuela, e foi vendido a Pinheiro
Pires, em 1957. Em agosto de 1957 foi adquirido por Henrique Severino Casini, e
Camilo Christofaro acabou comprando o carro em 1959. Camilo Jr. vendeu
o carro, após o falecimento do pai, em 1995. Hoje está na California.
O
chassis 3069 do Maserati 300 S Spyder foi usado por Fangio, nas suas vitórias
no Brasil em 1957 (Interlagos e Rio de Janeiro) e foi comprado por Severino
Gomes Silva, logo após a corrida do Rio. Acabou nas mãos de Adolfo Cilento
Netto, e foi vendido em 1978 a Colin Crabbe.
Outro
300S, o chassis 3035, foi comprado direto da fábrica por Antonio Barros. Correu
muito tempo no Brasil, inicialmente com o motor Maserati. Foi com este carro que
Barros correu nos 1000 km de Buenos Aires, em dupla com o argentino Luis Milan (abandonou
a corrida). Posteriormente, deve ter sido o carro usado por Barros, já com
motor Corvette, para obter o 2°
lugar nos 500 Km de Interlagos de 1963. Não se sabe como, foi levado à
Inglaterra, posteriormente comprado por um australiano, e hoje em dia é
propriedade de Mark Knopfler, guitarrista do Dire Straits. Há um certo grau de
dúvida quanto ao número do chassis, que dizem ser o 3074.
Um
Maserati 200 SL Spyder, chassis 2408, foi levado ao Brasil em 1957, por Corrado
Manfredini, e terminou com um certo Sr. Marx (não Karl, suponho). Nada se sabe
do seu paradeiro.
O
chassis 4503 57 também foi usado por Moss, além de Fangio e Behra. Com Fangio/Behra,
ganhou as 12 Horas de Sebring, em 1957, e pilotado por Moss/Behra, venceu o GP
Sueco de 1957. O carro foi destruído em um acidente na Venezuela, e os seus
restos vendidos a Camilo Cristofaro, em 1958. O carro foi reconstruído, e
acabou na Itália. Hoje está nos Estados Unidos.
Principalmente
os Maserati tiveram um longo período de serviço no Brasil. Segundo dissemos
acima, os Mecânica Continental correram no Brasil até 1967, com Camilo
Cristofaro, Zé Peixinho, e outros. Alguns Mecânica Continental ainda correram
nos 500 Km de Interlagos de 1967, e provavelmente são alguns dos chassis
enumerados acima.
Com certeza, um grandíssimo Talbot Lago daqueles que correram nos GPs oficiais até
1951, acabou no Brasil. O chassis 110 008 foi vendido para Pinheiro Pires, em
1951. Nada se sabe sobre o seu paradeiro.
Também
há uma série de referências a “Alfa Romeos”, que foram equipados com
motor Corvette e Ford, mas não encontro evidências se eram monopostos ou
carros esporte. É certo que os últimos Alfa-Romeos de F-1 a serem construídos
até as Alfas de 1978, haviam sido as Alfettas de 1951. Portanto, essas Alfas ou
eram Alfettas (improvável), ou eram carros esportes (quem sabe um Disco-Volante)
ou então Alfas do período pré-Guerra! Nesse último caso, o chassis já teria
quase trinta anos, quando correu nos 500 km de 1963, e chegou em 3o.
lugar nas mãos de Luis Valente, e rebatizado ‘Duchen Special”.
Continuo
a pesquisar e identidade das Ferrari de F-1/Esporte que terminaram no Brasil,
mas isso está sendo mais difícil. Alguma coisa já apurei. Muitas das Ferrari
que terminaram aqui, vinham através de Portugal, por exemplo a 225 SPYDER
VIGNALE, chassis 0198ET, que veio para o Brasil em 57; a 250MM Spyder Vignale,
chassis 0288MM, que também veio em 57. Outra 250 MM Spyder Vignale, foi vendida
para Marques em 1954, e acabou nos EUA (chassis 0330MM). A 160MM Spyder Vignale,
chassis 0290M correu no Brasil, mas
acabou em Portugal. Outra 16MM, chassis 0072E, também correu no Brasil. Uma
250TR, chassis 0738TR foi vendida para Camilo Cristofaro. Por outro lado, é uma
dedução lógica que os carros usados por brasileiros nas edições dos 1000 km
de Buenos Aires, tenham sido usados por eles no Brasil. Assim, Celso Lara
Barberis e Godofredo Viana correram em Bs. As. com uma Ferrari 750, em 1956;
duas 750 brasileiras correram em 57, com Barberis/Eugenio Martins, e com
Herminio Ferreira Filho e Godofredo Viana. A mesma dupla Barberis/Martins correu
com uma 750 em 58. Ou seja, pelo menos duas 750 devem ter corrido no Brasil.
Quanto aos monopostos, nada achei até agora.
Se alguém tiver mais informações sobre o
paradeiro ou identidade de qualquer carro
de mecânica continental, envie-me um email.
OUTROS
ARTIGOS DE AUTOMOBILISMO DE AUTORIA DE CARLOS DE PAULA
AUTOMOBILISMO BRASILEIRO
Série de artigos informativos
AUTOMOBILISMO
BRASILEIRO - ANTES DE 1970
GALERIA DE PILOTOS
BRASILEIROS QUE CORRERAM NO EXTERIOR
CAMPEÕES
DO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO
CURIOSIDADES DO
AUTOMOBILISMO BRASILEIRO
BRASIL - COMEÇO DO
CELEIRO DE PILOTOS - 1966-1971
RESULTADOS DO TORNEIO
BRASILEIRO DE F-2, 1971
RESULTADOS DO TORNEIO
BRASILEIRO DE F-2, 1972
1972 -
CONSAGRAÇÃO DO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO
VENCEDORES DE
CORRIDAS NO BRASIL
SCHUMACHER: É O
MELHOR DA HISTÓRIA?
EQUIPE HOLLYWOOD -
COMEÇO DO PATROCÍNIO COMERCIAL
CHEVROLET OPALA NAS
COMPETIÇÕES BRASILEIRAS
A ERA
FITTIPALDI - 1973/1975
MONOPOSTOS NO
BRASIL ATÉ 1980
MECÂNICA
CONTINENTAL - ONDE ELES ESTÃO?
PIONEIRISMO DE
EMERSON FITTIPALDI
FUSCA NAS CORRIDAS
BRASILEIRAS
MARCOS DO
AUTOMOBILISMO BRASILEIRO
FORMULA SUPER-VE NO
BRASIL
25 HORAS DE
INTERLAGOS DE 1973
HISTÓRIA DA
STOCKCAR