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Copyright © 2003 Carlos de PaulaNão pode ser reproduzido sem a permissão do autor A
FRANCESA DE BICICLETA Hoje
vivemos por conta dos adjetivos. Basta ver as seções de classificados pessoais:
SWMPGNX busca SBFPGNX para relacionamento. Somos WASPs, ou GLS, ou então B.S.,
M.S., Ph.D, com um M.D. ou J.D. de quebra. Somos PT radical ou moderado, neo-liberais
ou neo-neo liberais, social-democrata burguês!!! E procuramos nos definir de
acordo com o que supostamente somos, conquistamos, abraçamos, pensamos ou
pretendemos ser. Ao mesmo tempo, parte da humanidade busca a sua unidade,
fundamentada na bem intencionada, embora nem sempre bem administrada, filosofia
do politicamente correto. Almejam o rompimento das barreiras dos preconceitos
que aparentemente nos separam em grupos. Ou seja, existe uma ação, com reação,
como nos livros de física. A nível coletivo, buscamos a unidade, ao passo que
lutamos cada vez mais por uma individualidade ferrenha e competitiva, exatamente
o que alimenta a falta de unidade coletiva e os preconceitos. Feedback. Não
sou filósofo, sociólogo nem antropólogo, mero contemplador da vida. Só vejo
que quanto mais queremos nos convencer desta unidade da raça humana, mais
procuramos nos dividir em grupos, e subgrupos, e sub-subgrupos até chegar a uma
definição, preferivelmente agradável, de quem somos como indivíduos.
Perdemo-nos nos organogramas. Temos orgulho da nossa aparência física, das
nossas afiliações políticas e religiosas, dos canudos que penduramos na
parede. Treinamos risadas, andares, bocas e caras no espelho, fazemos aulas
disso e daquilo para impressionar os outros, não para crescer. Alguns rapam a
cabeça, outros fazem implantes, outros cortam o cabelo toda semana . Compramos
milhões de livros de auto-ajuda. Preocupamo-nos mais com nossas nacionalidades,
linhagem e time de futebol, do que com nosso próprio caráter e personalidade,
no fundo os dois únicos traços reais de individualidade. Parece que todos
estamos preparando empresas para uma oferta pública de ações, nos super-valorizando,
maquilando balancetes para obter o melhor preço possível. Por
outro lado, a mídia, moda e o marketing procuram nos padronizar. Bilhões de
Big-Macs servidos, milhões de pessoas assistindo American Idol semanalmente,
todos vestidos de roupas compradas na GAP ou Wal-Mart. Ação e reação, ação
e reação, ação e reação... Em
última análise, esta é uma batalha invencível. A maioria absoluta da
humanidade oferece um produto que não passa de um commodity, mas deseja passar
por artigo de grife. Até mesmo as celebridades que infestam tanto a nossa
imaginação e espaço acabam sendo imitadas e superadas por outras. Madonna,
que tanto impacto fez nos anos 80, hoje não choca, e se perde em um mar de
J-Los, Britney Spears e Cia. Ltda. Michael Jackson se torna redundante e objeto
de piadas, sem conseguir vender discos, e assim por diante.
Pouca
gente passa pela vida marcando o ambiente em que vivem, pois no fundo, parecemos
milhões de chineses dos anos 50, saudando o Chairmam Mao em uma grande praça
de Beijing. Padronizados e indistintos. Há
uma mulher, já senhora, que mora no meu prédio. Sua aparência chega a ser
anacrônica. Ares de anos 40, mas sempre bem arrumada, nem é bonita. Francesa.
E sai sempre com sua velha bicicleta, no meio de Nova York, como se estivesse no
interiorzão da França. Postura adequadíssima. Faz isso com a dignidade de um
presidente numa limusine em dia de desfile. Aparentemente não faz isso por
modelito. Simplesmente é assim e se destaca no meio de uma multidão.
Uma
francesa de bicicleta. OUTRAS CRÔNICAS DE CARLOS DE PAULA FOCO POP: ENTREVISTA COM REGININHA PIMBÓ |
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