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ETILISMO
E ELITISMO Por Carlos de Paula Mario Henrique
Simonsen era uma das unanimidades
dos anos 60 a 80 no Brasil. O brilhante professor era considerado por todos, brilhante.
Pouco importou que suas mirabolantes teorias não salvaram a economia do Brasil,
de fato, pode-se argumentar que pioraram a situação, mas o adjetivo brilhante
e Simonsen pareciam ser inexoravelmente casados. As outras duas grandes paixões
de Simonsen eram a música clássica e um bom scotch. O homem entendia
tanto do primeiro assunto que era freqüentemente convidado a escrever longos e
rebuscados artigos sobre música clássica em diversas e importantes publicações.
Quanto ao segundo quesito, parecia entender, e consumir com liberalidade.
Nunca vi ninguém
sugerir que Mario Henrique Simonsen fosse um mal profissional, ou que os objetos
de sua paixão fora da ciência o desqualificassem para o exercício de um
cargo, seja ou não público. Lembrem-se, o homem era supostamente tão fera que
fez parte do Conselho de Administração do Citibank, numa época em que este
tinha uma posição relativamente mais forte do que hoje, apesar de sua menor
escala. Antes de continuar meu
raciocínio, devo dizer que nunca fui simpatizante do PT, nem tampouco, do Presidente
Lula. Nunca fui PT roxo, branco, vermelho ou de cor alguma. Sempre achei o
partido manipulado: supostamente é um partido de operários, no qual o único
operário de destaque era, e é, o próprio Lula. De resto, sobressaem na
agremiação diversos intelectuais, políticos profissionais, ex-terroristas,
arrivistas, artistas de diversos matizes e até milionários, que de operários
nada têm e só usam a imagem do partido. Portanto, não tenho paixões, nem
tampouco razões intestinas ou motivos irracionais para defender o PT, ou coisas
ou personagens referentes ao mesmo. Hoje existem leis no
Brasil que proíbem o preconceito racial, e acho isso uma boa coisa. Sinal de
que a sociedade evoluiu bastante, pelo menos no papel. Atualmente uma pessoa
pensa duas vezes antes de deslanchar um ataque verbal contra uma pessoa de outra
raça, pois seu ato pode leva-lo a ver o sol nascer quadrado. Mas apesar dessa
evolução, ainda temos preconceitos imensos em diversas áreas, principalmente
o preconceito social. Lembro-me de uma
entrevista nas páginas amarelas da Veja, com o sambista Zeca Pagodinho.
Nessa falou-se muito do trabalho feito por Zeca no bairro onde mora, e outros
aspectos da sua vida profissional, e pessoal . O entrevistador deu o golpe
final, e obviamente intencional, ao perguntar ao sambista quais foram os
assuntos de uma recente conversa que tivera com o presidente. O sincero músico
respondeu que os assuntos foram “cachaça e samba”. Muito me preocuparia se
o Presidente tivesse revelado segredos de Estado ao pagodeiro. Ou pedido
conselhos sobre uma futura reunião com o Presidente Chavez, sobre as abaladas
relações com os Estados Unidos, ou se pedisse para dar uma olhada no orçamento,
fazer alguns cortes e sugerir um novo Embaixador para o Japão. Não, o
presidente conversou sobre cachaça e samba. Suponho que muitas
pessoas consideravam Simonsen brilhante por que quando começava a discorrer
sobre economia, reduzia conceitos em polinômios e derivativas, ininteligíveis
até para os mais espertos ou preparados dos seus interlocutores, muitos
dos quais fingiam entender o que significavam o bando de “x” e “y”,
provavelmente abanando incessantemente a cabeça, com ar de compenetrada e
consciente anuência. Ou seja, a alcunha de “brilhante” tinha tanto a ver
com a óbvia capacidade do professor, como com a ignorância da maioria da
humanidade em relação ao assunto. Afinal, quando você não entende o que uma
pessoa está dizendo, ou a chama de louca, ou de brilhante. Nunca vi ninguém dizer
na lata, ou sugerir, que ao balbuciar coisas que ninguém entendia, Simonsen
estivesse com muito Chivas ou Johnny Walker, Stravinsky ou Debussy na cabeça.
Atribuía-se o colóquio ininteligível à sua óbvia capacidade acadêmica e
intelectual, pouco importando que muitos dos seus experimentos, na prática,
tenham dado errado. Entretanto, quando
descobriu-se que Lula e Zeca Pagodinho conversaram sobre cachaça e samba,
imediatamente deduziu-se que o
Presidente tem muito álcool e música popular no cérebro, para ocupar o cargo
máximo da nação. Quando faltam argumentos
racionais para se combater alguma pessoa, descamba-se para o preconceito. Quando
uma pessoa não se enquadra no nosso ideal de “tchurma”, descamba-se para o
preconceito. Assim é que a exploração de um suposto lado sambista e
cachaceiro do presidente nada mais é do que preconceito social. Na falta de
argumentos que requerem um embasamento técnico ou factual, e cansativas explicações,
desqualifica-se o presidente com base nas suas paixões “de gentinha”.
A música e a bebida não desqualificavam Simonsen por que eram gostos
finos, sinal de apurado requinte e background. Este continuava brilhante,
apesar dos seus gostos, aquele continua “gentinha”, por causa dos seus. Criticar o governo e
governantes faz parte do processo democrático, quando a discussão é
fundamentada em fatos e conceitos que transcendem os gostos, ou até hábitos etílicos
pessoais do governante. Nesse ponto, embora não tenha o mínimo de inclinação
petista ou lulista, vejo-me forçado a defender o Lula, pois o argumento em
pauta é completamente falho. Afinal de contas, porre
é porre. Seja de scotch, champagne francesa ou de cachaça.
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