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O
ERUDITO E O INTELECTUAL Não
sou contemporâneo de Assis Chateaubriand, mas tive a oportunidade de ler alguns
dos seus escritos. Frequentemente falava muita besteira, mas no meio delas, às
vezes saía com algo interessante. Em um editorial de meados dos anos 60, sobre
uma das suas vítimas prediletas na época, o Presidente Castelo Branco, Chatô
saiu com uma que me deixou pensando. Embora
fosse a favor da revolução desde o início, Chatô logo se indispôs com
Castelo Branco. Naquela altura da sua vida Chatô já tinha sofrido o acidente
vascular que o paralisaria até a morte. Assim, pensou gozar de certa isenção
para falar o que bem entendesse do governo, apesar das diversas cassações já
realizadas pelo regime militar. Achava que ninguém colocaria um homem idoso e
doente, no seu estado, na cadeia. De fato, não foi preso, apesar de sentar a
pua no Castelo Branco. Em
um dos seus editorias, Chatô criticou Castelo Branco chamando-o de “come-livros”.
Castelo Branco era considerado um dos intelectuais do Exército, homem muito
lido. Só que aqui Chatô fez uma distinção clara entre o erudito e
o intelectual, admitindo que, embora Castelo Branco fosse “erudito”,
por ser bem lido, considerava que não era intelectual, pois lia, lia, lia, e não
absorvia nada do que lia, com senso crítico. Não
vou opinar sobre o Castelo Branco, pois não o conheci pessoalmente para avaliar
se era, ou não, come-livros ou intelectual. Mas aqui, Chateaubriand falou algo
muito interessante sobre erudição e intelectualidade. Frequentemente
consideramos os eruditos o máximo em intelectualidade.
É possível que uma pessoa saiba recitar trechos inteiros de Shakespeare e
Dante Alighieri, definir as diversas correntes filosóficas dos últimos
trezentos anos e falar corretamente diversos idiomas, provando assim ser um
grande erudito. Essa mesma pessoa, entretanto, pode ser completamente incapaz de
discorrer sobre esses assuntos com qualquer senso crítico ou criativo, sendo
assim um mero papagaio cultural, repetidor de cultura,
mas sem a capacidade intelectual de digeri-la e interpretá-la. Seria o
chamado conhecimento enciclopédico, mais grosseiramente intitulado “cultura
de almanaque”. Ou seja,
o sujeito pode ser um erudito de primeira, com excelente memória e “carga
cultural”, mas ser zero à esquerda como ser pensante. Frequentemente, na sociedade atual, mesclamos um atributo ao outro, e julgamos que todo intelectual é erudito, e vice-versa. Isso nos leva a grandes enganos, elevando certos homens e mulheres a um panteon cultural que não merecem, titulando-os “formadores de opinião”. Damos ouvidos a pessoas desqualificadas em quase todas as áreas culturais e técnicas, que têm uma boa base erudita, mas insuficiente capacidade de pensar. É isso que nos leva, de certa forma, a generalizações baratas, e rotulações do tipo “liberal”, “conservador” ou “neo-liberal”, pois julgo que quase nenhum ser pensante se enquadre 100% em cada uma dessas categorias. E infelizmente, são as limitações de tais rótulos que impulsionam a totalidade das vidas cultural, social e política desta era. OUTRAS CRÔNICAS DE CARLOS DE PAULA FOCO POP: ENTREVISTA COM REGININHA PIMBÓ FOCO POP: PRONUNCIAMENTO DE PRESIDENTE CANSADO DO MST? CONHEÇA O MSMM
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