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Copyright © 2003 Carlos de Paula

Não pode ser reproduzido sem a permissão do autor

EINSTEINZINHOS E ARROGANTEZÕES

Por Carlos de Paula

 

Notei uma coisa curiosa na minha última ida ao Brasil. Quase todas a novelas têm diversas crianças com um perfil super dotado. Não uma, mas diversas, muitas crianças, e freqüentemente, todas. São extremamente espertas, alertas, articuladas, sacam tudo, têm cultura acima da média e geralmente põem os adultos no chinelo, não só em conhecimento e raciocínio, mas até mesmo em desenvolvimento emocional. O sonho de todos os pais...

 

Notei outra coisa. Que muitas crianças, no mundo real, estão procurando emular tais crianças “globais”, com um único e sério porém:  são crianças completamente normais, que nada têm de super-dotadas, e chegam a ser chatas no seu intento de parecer o que não são.

 

De repente, voltei para minha infância. Lembrei-me de umas universitárias que moravam no meu prédio, estudantes de psicologia, que pediram à minha mãe para fazer um teste de QI  no meu irmão e em mim. Ao receber o resultado, que desastre: eu tinha inteligência média!!! Logo busquei todos os tipos de bodes expiatórios pelo meu downgrade intelectual, inclusive o fato de o teste ser tendencioso. Entre outras coisas, perguntava quem era o autor dos Lusíadas. Lá sabia eu, tinha 8 ou 9 anos!!! Estava mais interessado no Pato Donald do que nos clássicos. Culpo o Camões até hoje pelo meu fraco QI.

 

Julgo que os autores e diretores dessas novelas têm as melhores das intenções, querendo aumentar a auto-estima da petizada brasileira e assim cumprir o seu papel social. Mas, na minha própria experiência, posso dizer que não é muito agradável você ser uma criança, achar que é inteligente acima da média, e alguém te dá um banho de água fria, dizendo taxativamente, que você está dentro da norma.

 

Estas tentativas de aumentar artificial e excessivamente a auto-estima das pessoas, fazendo com que se sintam muito mais importantes ou especiais do que são, a meu ver não funcionam. Outro exemplo. De alguns anos para cá, milhares de empresas americanas adotaram o modismo de não mais chamar seus funcionários de “employees” (literalmente, empregados). Agora são freqüentemente chamados de “associates”, palavra que implica algo a mais do que um vínculo empregatício. Implica, querendo ou não, a idéia de sociedade, de stakeholder (investidor, acionista). O Brasil é pelo menos um pouco mais honesto no seu eufemismo: empregados agora são colaboradores. 

 

E que bela porcaria de sociedade têm os associates! Quando os funcionários eram meros e humildes employees, freqüentemente podiam contar com empregos vitalícios, contanto que fossem bons meninos, não pisassem na bola e fizessem seu trabalho direitinho, além de poder esperar gordas pensões, plenamente financiadas pelas empresas. No distorcido mundo das fusões e aquisições, os associates, que são levados a crer subconscientemente que são quase donos da empresa, nem sabem mais o que é estabilidade de emprego. Pensões: rá-rá-r­á! Se o freguês não puser a mão no bolso e investir em inúmeros esquemas de previdência privada acaba comendo biscoito na frente da televisão na sua terceira idade, em vez de viver o American Dream. Ex-gigantes do mundo empresarial mundial foram engolidos por nanicas empresas, em M&As envolvendo pouco dinheiro e muito papel, e os pobres associates vão para a rua, engrossando a lista dos desempregados. Ou devemos politico-corretamente chama-los de disassociates?

 

De tangível, a única diferença que a mudança de nome trouxe nos associates é uma forte turbinada na auto-estima destes indivíduos na pior área possível: na arrogância. O mais simples funcionário corporate americano se comporta, hoje em dia, como um intocável e empombado magnata, e a cortesia, educação e bom atendimento parecem ter se tornado palavrões.

 

Embora as duas situações pareçam desconexas, têm tudo a ver. Produtores e autores de novelas tupiniquins, em vez de sugerir que as crianças brasileiras são todas mini-Einsteins, e de criar expectativas totalmente fora de um padrão pragmática e humanamente razoável, usem a televisão para ensinar um pouco, em vez de imbecilizar cada vez mais a rapaziada. Empresas, deixem de enganar os seus colaboradores ou associates. Busquem meios de aumentar a estabilidade de emprego e chega de só maximizar o retorno dos investidores. Façam dos associates reais stakeholders.

 

Vamos cair na real, gente!  

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Last modified: October 15, 2007