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DOUTORES  

Por Carlos de Paula

 Outro dia, um amigo me pediu para enviar um fax. A linha discada era compartilhada com o telefone, e do outro lado atendeu uma sóbria voz masculina. Para não constranger o meu interlocutor, usarei um nome fictício e singelo: Zé. Perguntei, respeitosamente: “Sr. Zé?”. Resposta: “Não, DOU-TOR (enfatica e pausadamente) Zé”. Já era o fim do dia, hora perigosa para tratar um bem intencionado ser humano com tal empáfia. Embora tenha sido respeitoso com Zé, obviamente se ofendeu por não tratá-lo de “Doutor”, palavra pronunciada por Zé com extra salivação, certamente emocionado e entusiasmado com a sua imaginada condição de membro da elite intelectual do universo. Como estava cansado, não perguntei ao advogado “Zé” se tinha um Juris Doctor, para valer-se do título de “doutor””- pois se tivesse só o bacharelado em direito, continuaria a tratá-lo, respeitosamente, de “senhor Zé”. Assim, o resto da conversa permaneceu trivial, o básico “estou te mandando um fax, blá, blá, passe bem”. Certamente o “doutorado” de “Zé” não era fruto de uma modesta auto-consciência da sua eficácia, pois como advogado provou ser extremamente inepto, pelo menos no caso em pauta.

 Em outra ocasião, traduzi um diploma de uma médica brasileira, que ficou muito insatisfeita por eu ter traduzido o seu título de “médica” como “physician”. Insistiu que eu deveria ter traduzido “médica” como “doctor”. Não tive outra alternativa, senão ser didático. Expliquei que o curso de medicina no Brasil tem nível de bacharelado (contando a residência, no máximo, mestrado) pois não requer graduação prévia, e que nos E.U.A. todos os médicos eram Doutores em Medicina, pois o longo curso tem nível de pós-graduação, exigindo a conclusão prévia de um curso de graduação de pelo menos 4 anos. Ademais, informei que existe o curso de Doutorado em Medicina no Brasil, que ela aparentemente não tinha concluído. O hábito de chamar alguém doutor não deve ser confundido com o direito à titularidade, até mesmo sob o ponto de vista jurídico. Seria a mesma coisa que o Pelé reivindicar um reinado, coroa de ouro e súditos, só por que as pessoas se habituaram a chamá-lo “Rei do Futebol”. Afirmei também que o uso do termo“doctor”, como tradução inglesa da palavra médico, é vulgar e menos sofisticado do que o termo elegante, e vernacularmente correto, “physician”. Enfim, a nossa “doutora” aceitou, mas não gostou. Ficou uma vara, muito contrariada, para dizer a verdade. 

O Brasil é o país com o maior número de doutores no mundo. Basta ser advogado, delegado, ou qualquer tipo de autoridade, que você já se julga, ou te tratam, como doutor. As dezenas de milhares de senadores, deputados, vereadores, políticos, juízes e administradores públicos em geral, lotados nas dezenas de milhares de jurisdições do país, usurpam sem vergonha o título supostamente acadêmico. Especialmente numa época em que virou moda tornar-se político mal tendo o primeiro grau completo, isso dilui bastante o significado escolástico do termo. O pior é que os ex-ocupantes de cargos se sentem no direito de continuar a usar o título indefinidamente. Basta ser membro de um conselho de uma empresa, que o(a) sujeito(a) já vira doutor. Em alguns locais, basta usar o plural das palavras corretamente para ser tratado de doutor. Doutor em que, regência nominal? Para o guardador de carros, basta uma pessoa ser dona de um automóvel para ganhar um doutorado automático (salvo se o possante for um Gordini 63). Curiosamente, aqueles que gastam anos de vida enterrados em livros, os verdadeiros Ph.D., frequentemente são meramente chamados de “professores”. Privadamente, a expressão pejorativa “é só um professorzinho” ainda é frequentemente usada, principalmente pelos falsos doutores, que geralmente gozam de uma posição financeira-social mais privilegiada do que os verdadeiros doutores.

 A proliferação de “doutores” na nossa terra tem um paralelo no número de milionários brasileiros há alguns anos atrás. Quando a inflação corroía a nossa moeda à razão de mais de 50% ao mês, tornara-se fácil ser milionário no Brasil. Afinal de contas, na época um milhão de cruzeiros (ou cruzados, ou cruzados novos) equivalia a umas poucas dezenas de milhares de dólares. Bastava ser de classe média alta para ser milionário. O Plano Real acabou com a festa. Sem dúvida, muitos se contentavam, naquela época, em ter um patrimônio milionário, não importava se com dinheiro podre, assim como muitos se enchem de orgulho de serem chamados de doutor, sem ter esquentando os bancos das escolas e faculdades por muito tempo, e alguns mal dominando a chamada "norma culta" do idioma pátrio.

 

Precisamos de algo similar ao Plano Real para acabar com a farsa dos falsos doutores, e já tenho uma idéia. Só não sei se os doutores de Brasília (e são tantos) vão gostar da história, e aprovar a lei. A coisa funcionaria da seguinte forma. A pessoa que quer ou permite ser chamada de doutor, sem sê-lo, poderia usar o título alugando-o do governo, por, digamos uns R$20,000.00 anuais. Aquele que não pagasse a taxa anual, e fosse pego em flagrante aceitando ser chamado de Doutor, seria multado, digamos R$1,000.00 por ocorrência. Se o sujeito recusasse o título, dizendo humildemente, “Não, meu filho, não sou Doutor”, a multa não seria aplicada. O acúmulo de multas não pagas resultaria em prisão, etc. Poderia ser criada uma Polícia do Doutorado, para aplicar multas e garantir o cumprimento rigoroso da lei. O dinheiro arrecadado comporia um fundo de bolsas de estudo para alunos de...doutorado. Garanto que em menos de um ano ninguém mais vai querer ser chamado de doutor no Brasil.  

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Last modified: October 15, 2007