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CASA DO GATO

Por Carlos de Paula

 

Os gatos nos ensinam grandes lições, querendo ou não. Realmente não acho que tenham vocação ou vontade de ser mestres, mas acabam nos mostrando coisas interessantes.

 

Dizem que o relacionamento entre cachorros e homens é completamente diferente da relação gato/homem. O homem é dono do cachorro, e este aparentemente se resigna a esta posição de subserviência, humilde e alegremente. O homem pensa que é o dono do gato, mas a realidade é o inverso: o gato é que é dono do homem. Por isso, geralmente é mal entendido.

 

Dizem também que o cachorro de apega ao dono, e o gato, à casa. Mal entendido. Não é nada disso. É que o gato se considera dono da casa, além de ser dono do homem. Se o sujeito que acha que é seu dono vai embora, problema dele. Homem ingrato.

 

Meu gato me ensinou uma lição um dia desses. Estava tentando trabalhar no meu computador, todo gabola por que finalmente comprei uma tela plana, e o gato resolveu que o imenso espaço criado na mesa não estava ali para minha comodidade. Era, sim, a sua nova pista de pouso. Passei boa parte de duas horas expulsando o indignado aerofelino.

 

Daí me pus a pensar. Ou meu gato é burro (não é), teimoso (um pouco) ou então estava simplesmente reivindicando o que julgava ser seu direito. Afinal de contas, a casa é sua, pelo menos na sua ótica, e eu é que estou no seu caminho.

 

Pensei mais um pouco, e notei que nós, seres humanos, fazemos a mesma coisa. A maior obsessão humana, seja qual for o povo ou país, é ter um lugar para cair morto. E não digo uma tumba no cemitério. A tal casa própria. As pessoas trabalham que nem loucas e enlouquecem de tanto trabalhar, jogam na loteria, compram o Baú da Felicidade, fazem promessa, roubam parentes, dão golpes, posam para a Playboy, recebem mensalão, se matam, matam as outras, fazem qualquer negócio para ter um chão que chamam seu.

 

Nos Estados Unidos a obsessão chega a ser neurótica e non-sense. Digo isso porque o sentido de segurança da vulga casa própria é, na melhor das hipóteses, enganoso, verdadeira areia movediça. Por que a casa nunca é realmente sua. Nos EUA, uma porcentagem imensa dos imóveis é financiada com hipotecas de longo prazo. Ou seja, o sujeito acha que a casa é sua, mas na realidade é do banco, até pagar a última prestação, trinta anos depois de ter assinado o contrato de compra. Isso se não tiver segunda, terceira e quarta hipotecas. Muitas vezes morre antes de receber a escritura.

 

Até depois de ter quitado o mega-papagaio, a casa nunca é do freguês, nos Estados Unidos ou seja onde for.  Fique dois anos sem pagar o imposto predial e veja o que acontece com a “sua casa”. Mesmo que o imóvel seja isento de imposto predial, pode ser tomado para satisfazer dívidas e compromissos, justos ou não, basta o mover de um martelo. Isso sem contar um eventual tsunami ou tornado. Ou seja, somos como os gatos. Enganamo-nos que somos donos do pedaço, mas na hora “H”, pode vir o verdadeiro dono, muito maior e poderoso, e te arrancar da frente da sua suposta propriedade.

 

Não sei se agradeço ou se xingo meu gato.

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Last modified: October 15, 2007