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Copyright © 2003 Carlos de PaulaNão pode ser reproduzido sem permissão do autor AUTOMOBILISMO
– BRASIL ANTES DE SER CELEIRO Atualmente,
centenas de pilotos brasileiros participam com sucesso da maioria das principais
categorias do automobilismo mundial. O fenômeno é recente, iniciado de forma
acanhada na década de 70 e se intensificando com o sucesso de Ayrton Senna na Fórmula
1. Uma
análise mais detalhada da história do automobilismo nos faz crer que na década
de 30 o Brasil perdeu uma grande chance de se tornar verdadeiro pólo do
automobilismo no hemisfério sul, eventualmente perdendo para a Argentina, e
posteriormente, para Austrália e África do Sul. Até o início da década de
30, as corridas no Brasil eram poucas e de má qualidade. Entre outros fatores,
cabe lembrar a imensa distância entre o Brasil e os centros automobilísticos
da época, Europa e Estados Unidos, numa época em que a aviação comercial
estava nos primórdios, o que atrapalhava muito a realização de provas de nível
internacional. Irineu Correa na Gavea, 1934 A
partir de 1933, com a Corrida da Gávea no Rio de Janeiro, o Brasil iniciou uma
fase mais madura no automobilismo. A primeira corrida foi pobre em termos de
pilotos estrangeiros de renome, mas já em 1937, houve a participação de Hans
Stuck, com uma Auto Union, que surpreendentemente chegou em 2°,
batido pela Alfa Romeo oficial do italiano Pintacuda. Este até virou marchinha
de carnaval. A Auto Union era uma das duas principais equipes da época, e Stuck
um dos seus principais pilotos. A participação deles na Gávea equivaleria, em
termos atuais, a uma participação de Michael Schumacher com uma Ferrari nas
Mil Milhas Brasileiras! Carlo Pintacdua na Gavea, com Alfa Romeo, em 1938
Hans Stuck, no Auto-Union que foi batido por Pintacuda na Gavea, em 1937 Visto
que o Brasil não tinha uma indústria automobilística local, os carros eram,
na maioria, monopostos de corrida importados, como Alfa-Romeo e Bugatti. Na
corrida da Gávea participaram também alguns veículos especiais, baseados em
carros de passeio e esportes, americanos e europeus, de aparência esdrúxula.
Esses “especiais” obviamente não tinham a mínima chance de sucesso contra
os verdadeiros monopostos de competição, mas abrilhantavam a festa, e sem dúvida,
inflavam os grids. A
corrida da Gávea também propiciou a formação de alguns pilotos brasileiros
de categoria, entre os quais se destacaram Chico Landi, Nascimento Jr., Ruben
Abrunhosa e Manoel de Teffé. Teffé, de uma família aristocrática, participou
inclusive de algumas corridas na Europa na década de 30. Foi segundo em uma
corrida de subida de montanha na Itália, em 1930, e chegou em 6°
lugar na Targa Florio de 1937, tendo também participado de corridas na
Argentina. Landi, por sua vez, continuaria a correr até 1973, e foi durante
muitos anos o maior expoente do automobilismo nacional. Em
retrospectiva, o automobilismo brasileiro não foi para frente por não existir
um calendário sólido de provas locais, muito menos autódromos, pois o
Circuito da Gávea era um circuito de rua. Sem um automobilismo local bem
estruturado, os pilotos brasileiros não tinham onde e como desenvolver sua técnica
e carros. O problema teria sido resolvido com a inauguração do autódromo de
Interlagos (corrida ganha por Nascimento Jr.), em 1940, mas a Segunda Guerra
Mundial veio interromper a possibilidade de crescimento do automobilismo
tupiniquim. Enquanto
isso, a Argentina desenvolvia uma modalidade de automobilismo só sua: as longuíssimas
provas de Turismo de Carretera, realizadas em estradas de todos os tipos, com
diversos dias de duração. Os carros eram Chevrolets e Fords envenenados e
modificados, e sob muitos aspectos as competições mais pareciam rallyes do que
corridas. Foi exatamente no Turismo de Carretera que se revelaram os grandes
astros argentinos da década de 50, formando a base do automobilismo mais
desenvolvido da América do Sul na época. Também ajudava o fato de a Argentina
ser um país rico na década de 30, ao passo que o Brasil era
muito subdesenvolvido.
Após
o final da grande guerra, o esporte automobilístico voltou ao Brasil, mas de
forma acanhada. Realizaram-se diversas provas internacionais, na segunda metade
da década de 40 e durante os anos 50, em Interlagos e na Gávea, com a
participação de verdadeiros astros do automobilismo da época, como Villoresi,
Fangio, Varzi, Ascari, Farina, Gonzalez, Bonetto, de Graffenried, etc. As
equipes e pilotos aproveitavam a viagem, e participavam de corridas na
Argentina. A diferença é que o governo populista de Perón via no
automobilismo uma excelente oportunidade de propaganda política, e investiu
pesado não só na realização de provas, como financiou a formação de uma
equipe argentina, enviada à Europa em 1949. O resto é história; não só
revelou Juan Manuel Fangio como grande estrela do automobilismo mundial, mas
também iniciou um forte laço comercial entre o governo argentino e os
controladores da Maserati, um dos principais fabricantes de carros de corrida da
época. Foi através deste laço que se revelaram pilotos como Froilan Gonzales,
Onofre Marimon, Carlos Menditeguy, Roberto Mieres, e diversos outros, além de
Fangio. Sempre havia um lugarzinho para um argentino na Maserati. Já no começo
da década de 50, as provas internacionais do Brasil perdiam em importância
para a “Temporada” argentina, sempre realizada no início do ano, e de fato
a Gávea não sobreviveria a década, sucumbindo após 1957. Fangio ganhando prova em Interlagos, 1952 O
nosso Chico Landi ganhou inúmeras provas no Brasil, batendo pilotos
internacionais de renome, e teve excelentes participações nas “temporadas”
argentinas, e até mesmo na Europa. Ufanismos a parte, Landi não ficava tão
atrás de Fangio, e só não se destacou mais na Europa por que as equipes de lá
estavam mais interessadas em promover os pilotos do próprio continente, e, no
caso da Maserati, os argentinos. Cabe lembrar que no pós guerra, a Itália
tinha hegemonia no automobilismo de ponta, com equipes como Maserati,
Alfa-Romeo, a recém criada Ferrari, Lancia, Osca e Cisitalia. Apesar de ser
“oriundo” (descendente de italianos), Chico Landi teve poucas oportunidades
nas equipes de fábrica. Foi um dos primeiros pilotos da Ferrari, tendo
inclusive ganho os GP de Bari de 1948 e 1952, mas uma vez aumentada a estatura
da Ferrari, foi colocado em segundo plano. De fato, em 1952 obteve dois segundos
lugares, em Albi e Silverstone, mas não participou de um único GP oficial a
bordo do “Cavalino Rampante”. Na
época não existia o patrocínio comercial de pilotos, como hoje. As melhores
alternativas eram as seguintes: o piloto tinha de ser milionário e custear sua
carreira; ou então, cair nas graças de um milionário doido que o
financiasse(coisa difícil no Brasil da época); ser piloto de fábrica (normalmente,
por laços de cidadania) ou então ser financiado pelo governo do seu próprio
país. Landi era um mero mecânico, longe de ser milionário. Não tinha
mescenas, e por sua vez, salvo por uma Ferrari 4.5 que supostamente lhe foi
comprada pelo governo brasileiro (fato não confirmado pelo próprio Landi),
nunca recebeu um tostão para temporadas na Europa. E acabou sendo preterido na
Ferrari por não ser italiano.
As
suas participações no campeonato oficial de fórmula 1, iniciado em 1950,
foram poucas, e sem muita distinção, exceto pelo quarto posto alcançado em
dupla com Gerino Gerini no Grande Prêmio da Argentina de 1956. Incidentalmente,
esta foi a sua última participação neste campeonato. Daí para frente, Landi
continuou a correr no Brasil, com baratinhas de mecânica continental, com FNM
JK, chefiou a equipe Simca, lançou a mal sucedida
Formula Junior no país,
construiu protótipos, até se aposentar com um terceiro lugar nas 25 Horas de
Interlagos de 1973, em dupla com o seu filho Luis e Antonio Castro Prado.
Famosa Carreteira Chevrolet de Camilo Cristofaro O
sucesso da Argentina nos anos 50 foi em parte responsável pelo fracasso do
Brasil no automobilismo. As provas internacionais da Gávea e de Interlagos
deram lugar ao Grande Prêmio oficial da Argentina, aos 1000 Km de Buenos Aires (válida para o campeonato mundial de
marcas) e às provas da Temporada. No
Brasil, esporadicamente se realizavam provas de rua, especialmente no Rio Grande
do Sul, e Interlagos continuou a ser o único autódromo até meados dos anos
60. As corridas se realizavam com carros de turismo preparados, carros esporte,
carreteras e carros de mecânica
continental. Estes últimos eram chassis de
antigos monopostos de corrida europeus, inclusive de Fórmula 1, como Ferraris,
Talbots e Maseratis, geralmente equipados com motores Corvette. Eram possantes,
de fato mais possantes do que os carros originais, mas dificílimos de dirigir e
brecar! A mecânica continental
durou
até 1965, quando os carros produzidos no Brasil, e alguns GTs especiais, como o
Simca-Abarth, DKW-Malzoni
e Alpine, passaram a dominar as corridas junto com os
Karmann-Ghia Porsche da Dacon e as Alfa Romeo da Equipe Jolly Gancia. Por outro
lado, alguns pilotos brasileiros participaram das diversas edições dos 1000 km
de Buenos Aires, realizadas na década de 50, entre os quais, Cyro Caires, Celso
Lara Barberis, Eduardo Martins, Godofredo Viana, Herminio Ferreira Filho,
Severino Silva, Pinheiro Pires, Antonio Mendes de Barros e Fernando Barreto.
Nestas, participavam com carros com os quais corriam no Brasil, ou com carros
alugados, geralmente Ferraris e Maseratis de escuderias italianas. OUTRAS
AVENTURAS Um
uruguaio, Eitiel Cantoni, poderia ter sido responsável por uma presença mais
constante dos brasileiros na Europa, no molde dos argentinos. Fundou a Escuderia
Bandeirantes, com o objetivo de participar do campeonato mundial de 1952. Só
que as Maserati privadas de F-2 ficavam muito a dever às Ferrari, e aos outros
carros de fábrica, e tanto Cantoni quanto os brasileiros Gino Bianco e Chico
Landi (e outros pilotos não sul-americanos) tiveram participações pífias no
mundial e em provas não oficiais. A Escuderia Bandeirantes morreu antes de
concluir o desbravamento a que se propunha, e não passou de um ano de vida. Hernando
da Silva Ramos era franco-brasileiro. De fato, mais francês do que brasileiro.
Nasceu na França, falava francês e foi este o fato que o ajudou na sua
carreira, em grande parte na direção de carros Gordini. Foi num destes carros
que da Silva Ramos obteve seus dois únicos pontos na F-1, no GP de Mônaco de
1956, curiosamente uma corrida após Chico
Landi ter marcado seus únicos pontos. Da Silva Ramos continuou a correr mais
alguns anos, participou com a equipe de carros esporte da Ferrari nas 24 Horas
de le Mans de 1959 (abandonou a corrida), e chegou a obter bons resultados em
corridas de menor importância em diversos países da Europa, além de chegar em
2o. lugar no GP de Pau, em 1959, com uma Cooper.
Fritz
D’Orey correu
por pouco tempo, primeiramente tentando a sorte com uma Maserati 250F da Equipe
Centro Sud, em 1959, e fazendo diversas corridas na Formula Júnior. Nessa
conseguiu o seu maior sucesso no exterior, vitoria em Messina, em 1959. Fez
outras provas com o carro, que ainda existe (veja mais informações
clicando aqui) e acabou o ano com o ultrapassado Tec-Mec no GP dos Estados Unidos de 1959. Além
disso, participou das 12 Horas de Sebring de 1960, chegando em 6°
lugar. No Brasil, ganhou os 500 KM de Interlagos de 1958, a prova mais veloz do
calendário brasileiro, disputada no anel externo de Interlagos. BINO
HEINS FNM JK que ganhou as 1000 Milhas de 1960. Dupla Bino Heins - Chico Landi Além
de Chico Landi, o único outro piloto brasileiro que obteve real sucesso no
exterior, antes do final dos anos 60, foi Christian Bino Heins. De novo, as raízes
estrangeiras do piloto o ajudaram muito. Falava alemão perfeitamente, e foi
piloto de fábrica da Porsche durante muitos anos. Ganhou as 10 horas de Messina
de 1958, provas de subidas de montanha e circuito, e participou de algumas
provas do Mundial de Marcas, embora na época a Porsche não fosse candidata a
vitórias absolutas. Teve intensa participação na F-2 e F-Júnior
em 1959,
obtendo boas colocações. Obteve a melhor classificação de pilotos brasileiros no
Mundial de Marcas, até 1973, com o 4o lugar obtido em dupla com
Celso Lara Barberis nos 1000 km de Buenos Aires de 1960. No Brasil, ganhou as
Mil Milhas de 1960 com Chico Landi, a bordo de um FNM JK, a primeira grande vitória
de um carro fabricado no Brasil sobre carros estrangeiros e carreteras, e foi
fundamental na profissionalização do automobilismo brasileiro, fundando a
Equipe Willys, que revelou, entre outros, Emerson e Wilson Fittipaldi e Jose
Carlos Pace, expoentes dos anos 70. Lamentavelmente, morreu nas 24 Horas de Le
Mans de 1963, dirigindo um Alpine de fábrica. Como homenagem, Wilson Fittipaldi
Jr. deu o nome do Bino ao seu filho: Christian. FINAL
DOS ANOS 50 – MUDANÇA DE RUMOS Se
as coisas já eram difíceis para os brasileiros na época em que os italianos
mandavam no automobilismo internacional, pioraram muito no final dos anos 50. País
com uma das maiores colônias italianas do mundo, há certa simpatia mútua
entre brasileiros e italianos. A facilidade lingüística também deve ser
levada em consideração: o italiano é razoavelmente parecido com o português,
de certo muito mais do que o inglês e o alemão. Mas a partir de 1958, com o início
de hegemonia dos construtores ingleses na F-1, começou um domínio quase
absoluto de 10 anos de pilotos de idioma inglês no automobilismo mundial. Uma
indicação clara disso: no período de 1958 a 1969, a Ferrari, a mais italiana
das equipes, teve 11 pilotos de fala inglesa na sua equipe oficial de F-1: Mike
Hawthorn, Peter Collins, C.A.S. Brooks, Dan Gurney, Ritchie Ginther, John
Surtees, Phil Hill, Mike Parkes, Bob Bondurant, Chris Amon, Derek Bell, Jonathan
Williams. No mesmo período, só usou cincoo italianos nos seus quadros: Lorenzo
Bandini, Lodovico Scarfiotti, Giancarlo Baghetti, Nino Vacarella, Andrea de
Adamich.(*) Marcas como Maserati,
Lancia, Alfa-Romeo e Ferrari deram espaço aos construtores ingleses Cooper, BRM,
Lotus, Brabham, McLaren, etc... A jovem
indústria automobilística brasileira tinha laços com franceses, italianos,
alemães e americanos, e nenhum laço com ingleses.
E os latinos deram espaço aos ingleses, escoceses, americanos,
australianos, sul-africanos e neo-zelandeses. O pólo automobilístico do hemisfério
sul mudou taxativamente da Argentina para a Austrália/Nova Zelândia e África
do Sul, apesar de os argentinos terem tentado reavivar a Temporada no final da década,
sem muito sucesso. Mas Emerson Fittipaldi veio mudar tudo isso.
(*)
E de 1970 até o momento, ou seja, 33 anos, a Ferrari só teve três pilotos de
fala inglesa na sua equipe: Jody Scheckter, Nigel Mansell e Eddie Irvine. De
italianos, teve Arturo Merzario, Ignazio Giunti, Nanni Galli, Michele Alboreto,
Ivan Capelli, Nicola Larini e Gianni Morbidelli. Também teve um misto: o ítalo-americano
Mario Andretti, nascido na Itália, mas norte-americano. OUTROS ARTIGOS DE AUTOMOBILISMO DE AUTORIA DE CARLOS DE PAULA AUTOMOBILISMO BRASILEIRO - ANTES DE 1970 GALERIA DE PILOTOS BRASILEIROS QUE CORRERAM NO EXTERIOR CAMPEÕES DO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO CURIOSIDADES DO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO BRASIL - COMEÇO DO CELEIRO DE PILOTOS - 1966-1971 RESULTADOS DO TORNEIO BRASILEIRO DE F-2, 1971 RESULTADOS DO TORNEIO BRASILEIRO DE F-2, 1972 1972 - CONSAGRAÇÃO DO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO VENCEDORES DE CORRIDAS NO BRASIL SCHUMACHER: É O MELHOR DA HISTÓRIA? EQUIPE HOLLYWOOD - COMEÇO DO PATROCÍNIO COMERCIAL CHEVROLET OPALA NAS COMPETIÇÕES BRASILEIRAS MECÂNICA CONTINENTAL - ONDE ELES ESTÃO? PIONEIRISMO DE EMERSON FITTIPALDI FUSCA NAS CORRIDAS BRASILEIRAS MARCOS DO AUTOMOBILISMO BRASILEIRO 25 HORAS DE INTERLAGOS DE 1973 Back to Brazilian Yellow Pages |
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