|
brazilyellowpages.com
|
|
|
OUTROS ARTIGOS CLIQUE AQUI Não se esqueça de visitar meu blog CLIQUE AQUI
APARÊNCIAS Por Carlos de Paula Jerônimo
morava no apartamento 501, de um pacato prédio de uma sonolenta rua de um subúrbio
de uma grande cidade brasileira. Mudara há pouco, e ninguém no local sabia
nada sobre ele. Jerônimo era um anônimo. Saía de manhã para trabalhar, bem
cedo, e voltava à tardinha. Enclausurava-se no seu apartamento, e era
verdadeira incógnita. Pelo menos não perturbava ninguém.
A
vida de Jerônimo era um grande tédio. Sozinho, não tinha amigos, nem hobbies.
Um belo dia, ao sair do trabalho, resolveu comprar todos os jornais do
dia, para combater a bendita falta de ter o que fazer. Não sabia o porque da inédita
compulsividade, e tocou para casa carregado de jornais. Ao
chegar perto do seu prédio, todo desajeitado, ouviu um sujeito comentar para
outro: -
Olha lá o cara do 501. Agora descobri, só pode ser um intelectual, tá vendo a
jornalada que está carregando? Em
seus trinta e poucos anos, Jerônimo não se lembrava de ter feito impacto tão
grande em uma pessoa como naquele dia. Reitero: Jerônimo era anônimo. De
repente, alguém descobria que era um intelectual. Bem verdade que não era, mas
que importa? O que importava é que alguém achou que era alguém, ainda por
cima, um intelectual! No
dia seguinte, Jerônimo repetiu a dose. Veio carregado de jornais, e notou que
as pessoas já o olhavam de maneira diferente. Continuou a sua rotina, e pouco
tempo depois começou a comprar revistas. Muitas revistas, de todos os tipos,
assuntos e tamanhos. Logo cruzava a rua com o ar de superioridade de um rei que
passa por entre os súditos. Alguns vizinhos mais arrojados ensaiavam um tímido
cumprimento. O
ritual foi se expandindo, e Jerônimo
voltava para casa carregado de livros. Virou rato de sebos; em tudo que era
palavra escrita, punha as mãos. Os vizinhos colocaram a imaginação a
trabalhar: uns diziam que Jerônimo era um eminente professor universitário,
quem sabe estrangeiro, que resolvera trocar a agitação da cidade grande pela
calma do subúrbio. Outros juravam ter visto no Jornal Nacional que um Jerônimo
de tal tinha sido aceito na Academia Brasileira de Letras. Um grupinho queria
convidar o ilustre intelectual para a presidência da associação de residentes
do bairro. Outros já o viam vereador. Até
as mulheres começavam a olhar Jerônimo de forma diferente. Foi aí que Jerônimo
extrapolou. Passou a gastar quase todo o seu dinheiro e economias com matéria
impressa, e mal comia, pois não sobrava dinheiro. Andava para cima e para baixo,
gabola, com livros e revistas em alemão, japonês e francês, com o rosto sério
e já macilento que julgava terem os intelectuais. De
repente, Jerônimo desapareceu. Ninguém o viu por diversos dias. Certa manhã,
uns homens vieram bater no 501. Diziam ser patrões de
Jerônimo, mas ninguém acreditou, pois eram donos de uma humilde e
obscura loja de tecidos no centro da cidade. Estavam preocupados por que, entre
outras coisas, Jerônimo tinha pedido diversos meses de adiantamento de salário.
Seus patrões julgavam que os vales tinham sido gastos em tratamentos médicos,
já que seu leal funcionário parecia enfermo, com o inusitado emagrecimento.
Mal sabiam que o destino do dinheiro era a palavra escrita... Como Jerônimo não
abrisse a porta, arrombaram-na. A visão que tiveram foi chocante. Uma casa
cheia de jornais, livros e revistas, aparentemente nunca folheados, e um monte
de publicações no meio da sala. Já morto e em decomposição, soterrado sob o
peso das aparências, o corpo do famoso intelectual Jerônimo, ex-anônimo.
OUTRAS CRÔNICAS DE CARLOS DE PAULA FOCO POP: ENTREVISTA COM REGININHA PIMBÓ FOCO POP: PRONUNCIAMENTO DE PRESIDENTE CANSADO DO MST? CONHEÇA O MSMM
Back to Brazilian Yellow Pages |
|
Send mail to carlosdepaula@mindspring.com
with
questions or comments about this web site.
|