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ANDRAUS

Por Carlos de Paula

 

1972 – Verão. Final da manhã/começo de tarde de fevereiro, ainda de férias, repentinamente apareceu muita fumaça no céu. Lembro-me vagamente que as primeiras notícias eram erradas - como quase sempre são - mas finalmente ficou confirmado que era o prédio das Lojas Pirani que estava em chamas.

 

Não vou mentir. Só estive na Pirani uma vez na vida, e não achei lá essas coisas. A seção de brinquedos era bem fraca, e esse era o parâmetro que eu usava para julgar lojas naquele estágio da minha vida. Podiam me chamar de hipócrita se dissesse que sentiria saudades da Pirani. Seria a mesma coisa se eu dissesse que fiquei muito abalado com a recente morte da Cassia Eller. Na realidade, mal sabia quem ela era, nunca ouvi músicas suas, então no máximo, poderia sentir respeito por ela, como ser humano. Suponho que respeito é o que tinha pela Pirani. Se fosse a Lojas Brasileiras da Rua Direita a se incendiar, aí sim, quem sabe até chorasse de saudades e esperneasse de inconformismo. Verdadeira muvuca do varejo popular, a Lobrás da época tinha muitos dos meus carrinhos de plástico prediletos, além daquela galinha de plástico que punha ovo se fosse apertada (nunca tive uma, mas gostava de saber onde comprá-la, se precisasse). Além de ter aquele feeling de feira da uva que ainda hoje me atrai.

 

Mas era impossível evitar a Pirani, instalada em prediozão imenso, pelo menos para os padrões de São Paulo da época: o Edifício Andraus. Entretanto, aquele incêndio me preocupava por uma razão egoísta. No outro lado da rua à direita do prédio havia uma simples lanchonete, na qual comi meu primeiro hambúrguer. A minha memória gustativa anda meio fraca, mas confesso que nem na terra dos hambúrgueres comi um hambúrguer tão saboroso quanto aquele, preparado na chapa da humilde lanchonete. Estabelecimento sem mesinhas, só balcão de aço, e cujo nome não me lembro.

 

Incêndios são assustadores. No Brasil da época eram comuns os incêndios nas emissoras de TV. Só na Record foram três, se não me engano. Alguns dizem que eram ataques terroristas, outros alegavam que os equipamentos da época eram dados a auto-combustão, e outros juravam que...Deixe pra lá o que os últimos juravam. Lembro-me que a primeira vez que vi fogo em grande quantidade, ao vivo, foi num ensaio de um programa de TV na antiga TV Excelsior. No palco, um artista chamado Walter Stuart ensaiava um número, mistura de sketch humorístico, pantomima e circo, no qual usava bastante fogo. Fiquei impressionado.

 

Só que a realidade do Andraus bateu muito próxima da minha porta. A Avenida São João parou, e logo, começaram os constantes ruídos de sirenes. O céu começou a ser cortado por helicópteros, muitos helicópteros. Hoje tão ubíquos na Paulicéia, na época eram raros, acabando por ter um papel importante na resolução do caso Andraus. A curiosidade venceu o medo, e acabamos, eu, meu irmão e minha mãe, indo para a Avenida São João assistir ao espetáculo pirotécnico.

 

O incêndio foi bravo. As labaredas subiam alto, e de vez em quando explodia alguma coisa. Choramos, como todos ao nosso lado. E daí ficamos cientes de que muitas pessoas, sem ter como sair do edifício, subiram para o topo do espigão. Lá, restava a única esperança do resgate por helicóptero. E aparentemente assim foram salvos muitos desesperados, dissuadidos da louca opção de pular. Surgiu também um herói, um policial da Rota chamado Caçanica, Cazzaniga, ou coisa do tipo (espero que não fosse Caça-níqueis). O boina preta subiu as escadas do prédio, sem máscara ou nenhum outro equipamento, e salvou muita gente carregando nas costas. Fiquei muito aliviado ao ler o livro Rota 66, décadas mais tarde, e constatar que o herói do Andraus não era mencionado entre os matadores da amedontradora corporação!

 

A coisa tomou a quente tarde de fevereiro inteira. Quando parecia que o pesadelo havia chegado ao fim, passou uma pick-up Rural cinza na minha rua, com um volume encoberto por uma lona. Parecia um corpo, certamente carbonizado. Para uma criança de 11 anos, uma cena marcante.

 

No dia seguinte, todos os jornais editaram edições especiais sobre o caso, inclusive a NP (sem nenhuma mentira, até o homem-mãe e as vedetes da Rua Aurora desapareceram das páginas do jornal, naquele dia). Acho que foi a única vez que li o Diário da Noite e o Popular da Tarde. Aparentemente a origem do incêndio foi elétrica, e afortunadamente, o número de mortes não foi tão alto como se pensava: muitos feridos e dezesseis pessoas mortas. Uma delas o corpo inerte da Rural.

 

O prédio da Pirani continuou uma presença inevitável na Avenida São João, só que agora macabra, empretecida, ameaçadora. Muitos diziam que o prédio seria demolido, ruiria, que a estrutura tinha sido abalada. No fim das contas, acabou reformado e lá está até hoje. Dois anos depois, um repeteco: o incêndio do Joelma, no qual morreram 180 pessoas. Embora tenha sido muito mais voraz no seu apetite por vidas humanas, o Joelma não teve tanto impacto no imaginário dos paulistanos, pelo menos no meu. Mas o nosso herói Caçanica/Cazzaniga também marcou presença.

 

O desfecho do caso Andraus não foi bom para mim. A simplória lanchonete ao lado da Pirani foi fechada, e nunca mais comi um hambúrguer igual, nem na terra dos hambúrgueres.

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Last modified: October 15, 2007